O carnaval é a grande festa nacional. Mais que festa é o descanso, a pausa, o intervalo, o recreio. Tudo fica para depois destes quatro dias de folia: as contas, os compromissos, o assunto sério, a dor de cabeça, o abacaxi existencial. Até quarta-feira, os foliões adquirem uma nova e efusiva personalidade. Sob o esconderijo das máscaras e o patrocínio da AmBev, tudo pode. Neste período, até a permissividade, que se esconde no restante do ano, toma as avenidas para informar que o Brasil é um país liberal, embora moças de minissaia sejam expulsas das universidades em ''tempos normais'', quando coxas à mostra são indecentes.
Mas nestes quatro dias, que alegria. O País vira um grande BBB, com câmeras flagrando nos salões o que seria proibido para menores fora do limites do território escancarado de Momo. Afinal, desde a antiguidade, o carnaval existe para isto mesmo: distender as repressões, pôr em xeque as proibições, instaurando um novo sistema de relações humanas. Que sonho! Embora depois, bem depois, fechem-se as cortinas, porque o show não deve continuar.
Até lá, meu bem, faça de conta que somos livres, embora a liberdade não possa ser pendurada como uma bandeira num tapa-sexo aqui, numa argolinha acolá. Liberdade, brother, é um conceito bem mais profundo que admitiria regalias 365 dias por ano e não só neste espaço do faz-de-conta intitulado ''Brasil, país do carnaval.'' Os gringos ficam pensando que nossa realidade são estas mulheres fogosas, estes exímios passistas, os equilibristas que avançam triunfantes nos carros alegóricos. Se soubessem para onde vai esta multidão depois do último toque.
Não, não tenho nada contra a alegria ou contra as distensões. Mas queria que a euforia perdurasse e que os preconceitos desaparecessem nos outros meses do ano. Não queria que os caras do bloco ''Mamãe sou bicha!'' só pudessem se assumir assim, cobertos de purpurina, porque de cara lavada ainda ofendem os ''bons costumes'', sendo considerados atentados ao pudor. Não queria que os integrantes do ''Somos Todos Felizes'' sofressem a angústia do fim do desfile, porque depois dão um duro danado para comer de vez em quando uma marmita caprichada. Não queria que o bloco do ''Índio Quer Apito'' deixasse a impressão de que eles só querem um apito mesmo, estes ''arruaceiros.''
No fim da festa, terminada a folia, somam-se a pobreza material e a pobreza de espírito. Somem as plumas e os paetês e, na quarta-feira, vamos de novo enfrentar a realidade sem brilho.
Na verdade, sou sim a favor do Carnaval, como uma possibilidade de alegrar o coletivo, mas onde estará nossa capacidade de manter o mesmo estado de espírito, sob a égide de um estandarte original e cintilante?
Se é pra fantasiar, podíamos passar o ano travestidos. Julga-se menos e sofre-se menos quando estamos todos mascarados. Mas a ressaca, poxa, a ressaca é uma quaresma quase sem fim. Quando deixamos a brincadeira de lado e rumamos para nossas vidinhas controladas, onde não há irreverência que dê jeito nas mentalidades estreitas que criam um péssimo enredo, depois do recreio e sem patrocínio.
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