Célia Musilli - Cadê o petit-pavê?
Sempre gostei de andar no Calçadão de Londrina quando chega o frio. Passarela urbana onde os tipos desfilam alegres ou tristes, envelhecidos como um jogo de paciência, jovens como a ninhada da minha gata Flor is Bella, multicultural como a gente desta cidade.
Do Calçadão guardo a imagem de muitos invernos. Um céu translúcido por cima, que a gente espia entre as frestas dos prédios, uma trama indígena por baixo, no tapete de petit-pavê que tem nome francês e design kaingang. Multicultural como a minha gata Flor is Bella.
Mas cheguei aqui outro dia e senti falta de um pedaço do petit-pavê, porque desfizeram a trama, o tapete contínuo perdeu cor e história. Ainda que o novo tapete tenha um espelho dágua, ele jamais irá refletir o que se passou, porque a trama tinha memória.
No início era um barro vermelho que ganhou paralelepídedos, fazendo percussão com os passos e as rodas. Depois veio o asfalto da modernidade insurgente e, um dia, alguém resgatou a poesia em pedra. A velha avenida virou Calçadão de petit-pavê, nossa Copacabana sem mar, mas que dava a impressão de que a vida urbana pode ser desenhada, para que não seja insípida e sem forma.
Uma cidade desenhada é muito mais bonita, mais lúdica, caleidoscópio que giramos nos olhos, cientes de seus melhores ângulos. Para mim, o Calçadão de petit-pavê era um destes ângulos. Sem o charme líquido da beira do lago, mas sólido como a poesia em pedra, a poesia em preto e branco que sempre víamos do alto, como tapeçaria.
Sei que a substituição das pedras pelo novo calçamento vem cheia de argumentos que se pretendem lógicos. Dizem que o petit-pavê é deslizante, não oferece segurança, quebra os saltos e que as pedras se soltam. Ora senhoras, desçam do salto, mesmo porque não me ocorre a lembrança de nenhum acidente grave ou que ultrapasse o risco da gente descer três degraus em nossa própria casa. Na cidade cheia de medo, de ruas escuras e buracos no bom asfalto, implicaram com o petit-pavê como quem implica com a poesia que resta na cidade.
Quando eu voltar aqui, o tapete cinza do paver já terá engolido os vestígios lúdicos da velha trama kaingang. Trama de balaios transposta para as pedras num trabalho artístico que deixou para a cidade cartões-postais e fotos que guardam a memória da nossa Copacabana sem praia, agora engolida por uma ressaca de argumentos.
Argumentos a favor da durabilidade e da segurança que transformam a vida urbana numa chatice politicamente correta, numa sucessão de razões que a poesia e a história desconhecem. Pior do que engolirem o petit-pavê, foi terem engolido um pedaço da nossa identidade. Porque Londrina perdeu memória, Londrina perdeu história, Londrina, senhores, perdeu seu RG kaingang





