Há muitos anos conheço as cartas do tarô. Claro que meu tempo não é nada perto deste sistema de conhecimento que vem da Antiguidade. Meu primeiro baralho foi um tarô egípcio e eu gostava de ler sobre suas origens que, segundo consta, vêm dos sacerdotes que pensaram num modo de preservar a sabedoria do mundo antigo transformando o que seria conhecimento em vício. Daí a propagação das lâminas simbólicas originais através de um baralho que, afirmam alguns, os ciganos teriam se encarregado de difundir pelo mundo.
Minha relação com os sistemas de conhecimento intuitivo se dá mais pela mágica da imaginação do que pela crença. Acho fantástico que o homem possa se comunicar por símbolos e compreender melhor a si mesmo e ao mundo através deles. O tarô, sob este ponto de vista, é uma aula de relações com o universo. Ao reconectar-se com o cosmos, o ser humano faz um resgate permanente de suas raízes, das razões e emoções primordiais que o movem neste mundo.
Recentemente, tive o prazer de entrar em contato com um tarô baseado nas ideias de William Blake (1757-1827). Quem conhece a história deste poeta inglês sabe de suas ligações com os mistérios que ele converteu em poesia do mais alto nível. Blake era tido como esquisito ou extravagante. Afirmava ter visões de outros mundos ou de realidades paralelas, o que motivou, em parte, a desconfiança de seus contemporâneos que o consideravam mesmo um louco. Seja como for, era um louco criativo, inventivo, inspirado. A beleza de sua poesia atravessa os séculos e seu poema O Tigre é tido como um dos mais conhecidos em todo mundo.
O norte-americano Ed Buryn, nascido na Califórnia, diz que se inspirou em Blake para criar um tarô que leva o nome do poeta. Buryn criou 23 cartas arquetípicas ou triunfos (triumphs) – consideradas, de certa forma, as mais importantes do jogo - e mais 56 que ele chama de cartões e que seriam as auxiliares dos triumphs. Chama a atenção ele ter criado 23 cartas arquetípicas em vez das 22 dos sistemas originais, normalmente chamadas de arcanos maiores. Burny evita a palavra "arcano", que significa segredo, por julgar que, hoje, o tarô não é um segredo, mas sim um conhecimento cada vez mais compartilhado - através de livros, revistas ou pela internet - o que me leva a pensar que ao transformar "conhecimento em vício", os antigos sabiam o que estavam fazendo. O tarô, realmente, está em toda parte.
Na Europa, o jogo ficou bastante conhecido a partir do século 16, embora no continente a primeira menção às cartas date de 1442, na Itália. Blake pegou a fase da expansão do tarô, embora fosse inglês e na Inglaterra, desde 1684 – em função da disputa entre países - houvesse a proibição de se importar material estrangeiro, incluindo os cartões ou cartas. Mas por volta de 1780, o chamado ocultismo francês entra em expansão e se espalha, embora tenham sido necessários mais de cem anos para que o tarô chegasse ao significado e à popularidade que preserva até hoje. Foi só em 1909 que surgiu o primeiro baralho inglês, o famoso Tarô Waite, criado por Arthur Waite e Pamela Smith.
Entendendo-se o tarô como um jogo de imaginação, e sendo a imaginação compreendida como uma espécie de "visão da alma", nada mais natural do que associar as ideias de Blake ao tarô, como fez Burny.
Blake é um poeta de grande criatividade, mais que isso, um cara genial que foi considerado louco mas deixou para a humanidade a poesia de mais alto nível, que podemos chamar de supra poesia, concebida para mostrar o poder da imaginação humana, de criação ilimitada.
Pensando no tarô como um sistema de linguagem simbólica – como a poesia - capaz de estimular as "visões da mente", resta-me agora conhecer um pouco mais o Tarô de Blake. Se não me tornar adivinha, posso tornar-me, ao menos, mais poeta. E deixo o endereço para quem quiser conhecer melhor estas artes: http://www.blaketarot.com/

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