CÉLIA MUSILLI - Bandeiras
PUBLICAÇÃO
sábado, 02 de março de 2013
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O símbolo, este senhor abstrato, dá nós em nossa cabeça. É coisa que finge ser o que não é, mas se apresenta de um jeito que não deixa dúvidas sobre sua conexão com a realidade. Pegue uma bandeira do Brasil, transforme-a numa colcha de retalhos, mas deixe lá todas as geometrias, o retângulo, o losango, o círculo. Estenda o pano, pegue a logomarca da Coca-Cola e crave lá no meio, naquele lugar onde nosso imaginário sinaliza que estaria a frase "Ordem e Progresso." Pronto, você tem uma bandeira nacional que virou outdoor, aquele suporte de propaganda que existe para chamar a atenção nas ruas, melhorar as vendas, sinalizar que o consumo está ao alcance de todos. Mas será que a gente pode vender a bandeira do Brasil como uma lata de Coca-Cola? O valor é o mesmo? O conceito igual? A gente pode renomeá-la usando no seu miolo uma bugiganga da China? Uma linguiça calabresa? Um hambúrguer americano? Uma vodca russa? Transformaremos nações em conglomerados financeiros, em mercados de capitais, em produtos?
Então, coloquem à venda os EUA para quem pagar mais. O Congo para quem gosta de calor. A Capadócia para quem acredita em fadas. Reformem o mapa-múndi retirando dele todas as identidades culturais formadas através dos séculos por línguas, povos, costumes, bandeiras. Coloquem a identidade humana na bolsa de valores como uma empresa.
Pensei tudo isso na semana passada, ao ver um anúncio da Copa do Mundo com um de seus patrocinadores posando de bom menino sobre a nossa bandeira. Não gostei. Acostumei-me a ver a bandeira desde criança como uma mulher sagrada, uma mulher que atende pelo nome de pátria. A associação do símbolo do meu país com mercadoria, com um produto que nem é da Amazônia, mas o legítimo representante de uma cultura estrangeira, me deu uns calafrios patrióticos que nem pensava ter mais, aquilo agrediu uma ideia de Brasil que vem lá da infância, junto com memórias de jabuticabas, carambolas, papagaio e saci-pererê.
Na rede social lancei a pergunta: será que só eu senti que usaram a bandeira do Brasil como outdoor de refrigerante? Será que a Copa que vem por aí além de mexer com nossas vidas, nossas leis, pode transformar nossa cara num arremedo de mercadoria, nosso orgulho em tabuleta de gôndola? Porque do jeito que fizeram, aquilo não era mais o Brasil, era a Coca-Cola, numa metamorfose consumista.
Na rede social, alguns entenderam logo o recado. Era tão clara, tão escancarada aquela logomarca descendo de paraquedas sobre a bandeira que não havia erro quanto a conceituar Brasil = Coca-Cola, numa equivalência de valores.
No entanto, para muita gente aquilo não teve "nada demais", não conseguiram enxergar nada que fuja ao que o show publicitário já proporciona, adoraram ver todo mundo sorridente, o cachorro vestido com a camisa da Seleção, a tomada aérea da bandeira, não estavam nem aí para quem desceu de paraquedas. Repetiam: propaganda linda, propaganda linda, currupaco papaco, aplaudindo clichês.
O mais grave talvez seja a falta de percepção. A anestesia midiática pica as nossas veias há décadas, desfaz sentidos, injeta a falta de senso crítico que nos faz enxergar tudo com olhos virtuais, esquecendo que símbolos têm uma conexão histórica com a realidade.
Há dificuldades no entendimento do símbolo e do simbólico. Alguns acham que a logomarca do refrigerante só teria usurpado o sentido nacional se fosse cravada no lugar de "Ordem e Progresso" como um bordado, numa "bandeira de verdade." Não entendem que o símbolo existe como um conceito transcendente, como um signo que está no lugar de alguma coisa. Talvez só compreendessem o que considerei se não ofensa, uma troca bruta, se aquilo fosse feito na "peça original" e não numa bandeira estilizada. Os publicitários inteligentes estilizaram a bandeira para não infringir a legislação que proíbe o uso de símbolos nacionais fora de seu contexto cultural. Mas para uma parcela da população, a imitação da bandeira não é bandeira, não atingindo a compreensão de que a propaganda entra de forma subliminar, no sentido de atuar indiretamente no subconsciente, no imaginário. A propaganda quer dizer: se você é brasileiro, beba Coca-Cola. Mas potencializaram o desejo de consumo a partir de um símbolo que para mim e para muitos brasileiros, não está à venda.
Talvez, a utilização de um símbolo nacional como subproduto só fique clara quando transformarem o fundo da bandeira num hambúrguer e as estrelas em batatas fritas. Aí matarão de vez nossa utopia, nosso país simbólico, transformando a ideia de nação num camelódromo, num shopping, onde identidades e sentimentos também serão mercadorias.


