Carnaval é quando meu temperamento alienígena se manifesta, sinto-me um verdadeiro ET, louca para embarcar de volta nalguma nave que não seja um carro alegórico com pessoas emplumadas simulando voos. Desde sábado, perdi as contas de quantos pavões e peruas vi passar na avenida, rebolando como se estivessem ligados a uma bateria oculta, com luzes piscando no traseiro, circundados por dragões e fumacinha fake. Nada contra o samba e os batuques, ao contrário, gosto destes ritmos, mas o espetáculo atropela a originalidade. Tem muita lantejoula e pouca cuíca. O carnaval das cidades do interior, diversão simbólica e comunitária, morreu, sobraram as megafestas de fantasias caras e sonhos desfeitos.
Desde que o axé passou a fazer parte da lista carnavalesca, fujo como o diabo da cruz daquela visão de multidões grudentas, de bracinhos para cima e para baixo, gritando "ai, ai, ai, tô no Pelô." Tudo tão homogêneo e sincronizado que me lembra um exército coreano com pouca roupa, tentando um falso rebolado. Tem mais turistas duros do que nativos requebrando debaixo dos abadás. Ficam ali, atrás e na frente dos trios elétricos, essa armação esquisita que parece a gaiola das loucas movida a diesel, bufando e soltando CO² nas avenidas, com Ivetes e Margaretes gritando sem parar "ô, ô,ô, ah! ah! ah! ah! Agora vocês vêm comigo." Eu, hein? Ir para onde?
Procuro urgentemente um voo para Pasárgada, a intenção é fugir do reinado de Momo. Aceito retiros em praias desertas, a preguiça magistral de ser abanada por palhas de coqueiro, vestida com paninhos coloridos como uma mulher de Gauguin. Ai, meu Taiti, bem ali.
Aceito melancia, cachaça da boa e água de coco. No mais, me avisem quando o fuzuê passar, quero reencontrar o lirismo de Cartola, o bom samba me eleva, a folia globalizada me oprime. Uma visão que me apavora são as caras inchadas por excesso de bebida que saltam da telinha, tão lustrosas que me lembram pudins aditivados por fermento químico.
Por outro lado, não posso deixar de admirar a resistência desta gente que passa até cinco noites acordada sem cansaço, numa animação infernal como se tivessem cinco pomba-giras grudadas no corpo, uma para cada noite. Meu orixá deve gostar de batuques suaves e murmúrios de águas. Minha alma afro-brasileira tem nostalgia do canto solene dos Filhos de Gandhi, da Bahia mística de rezas e palavras encantadas.
Este ano, talvez o carnaval sirva de passe apaziguador num país em convulsão, os surdos abafam gritos e o som da marcha dos coturnos. Torço para que liberem lança-perfume no lugar de gás lacrimogêneo.
Mas não sei não, os cordões que tenho visto passar andam agitados, usam fardas e deixam dentes à mostra, o Brasil deve ser alegre nem que for na marra. O carnaval cai bem neste fim de fevereiro. Depois virão as águas, chuvas para lavar confetes e a sensação de que tudo vai bem. Depois do reinado de Momo volta a nudez sem mulatas e não haverá surdo que dê conta da insatisfação que é o avesso da folia. Por ora, sambem em paz ainda que o axé seja eletrônico, os cabos serão desligados na quarta-feira.

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