Ícone do jornalismo, o norte-americano Gay Talese esteve recentemente no Brasil, deixando na imprensa o brilho de suas ideias. Convidado da Flip - Festa Literária Internacional de Paraty - ele participou não só do evento, mas deu entrevistas inspiradas aos principais órgãos de imprensa do País, afinal é um dos papas do chamado ''novo jornalismo'', estilo inaugurado nos anos 60.
Esta semana, assisti à sua entrevista no Roda Viva, programa da TV Cultura. Uma aula sobre a profissão, em que ele cutucou com vara curta todos os mitos do jornalismo contemporâneo. A começar pelo incenso que se asperge sobre a tecnologia, o jornalismo da internet, a fórmula fast food da reportagem feita sem que ninguém se levante da cadeira, a pesquisa via Google.
Talese, aos 77 anos, é um jornalista à moda antiga e, tendo em vista a anemia da profissão na atualidade, este conceito não deve ser entendido como uma crítica, mas como um elogio. Ele defende a pesquisa de campo, a reportagem em que se gasta tempo para fazer um serviço bem feito, no caso, ''jornalismo com credibilidade''. Segundo ele, isto significa aproximar-se da realidade com lupas, estar frente a frente com os entrevistados, não só anotando ou gravando freneticamente o que eles dizem, mas observando seus gestos, o modo como falam, o tom da voz, os atos falhos. Trata-se de jornalismo com fundamento analítico, em que o objeto da reportagem é visto como um todo, não como a ínfima parte de um olhar ligeiro.
No Roda Viva, Talese foi entrevistado por um bando de jornalistas classe A, aviões da imprensa nacional, acadêmicos e profissionais das redações. Alguns tentaram dissuadi-lo da ideia de que a tecnologia não é tudo. Que os googles e twitters podem ser ferramentas poderosas para a prática da reportagem. Receberam de volta uma resposta crítica e ponderada. Talese sugeriu que os jornalistas saiam da frente dos seus laptops e se aventurem pela realidade. Segundo ele, isto abre novos pontos de vista. Argumentou que ninguém pode escrever sobre o Talebã usando o twitter e disse que fica pasmo quando vê na internet a mesma fotografia sendo divulgada várias vezes, como se fosse a imagem suprema de uma crise internacional.
Deu como exemplo, a foto de um único chinês batendo num único tibetano, o que reduz infinitamente a relação de cem chineses espancando um tibetano. Diz que medidas e dimensões da realidade estão sendo reduzidas nas telas dos laptops, nas quais depositamos toda a confiança de repórteres a distância. Em outras palavras, criticou a fragmentação dos fatos, porque em tempo de jornalismo burocrático, quase ninguém vai a campo, fica esperando a notícia cair como uma ficha.
Outro mito que Talese cutuca é o dos furos jornalísticos. Disse que nunca esteve nem está interessado nisto. Seu objetivo é trabalhar direito e não se importa com quanto tempo gastará na empreitada. Também não faz questão de ser o primeiro a divulgar um fato com rapidez que promove, às vezes, uma inverdade. Preserva a credibilidade sobre a velocidade.
Aos repórteres que grassam nas redações com iPhone nos bolsos, Talese pode parecer um tipo estranho, um repórter exótico que emerge das ''vidas passadas'' para dar aulas sobre uma profissão em decadência. Concordando ou não com ele em tudo, não há como não admitir que ele faz parte da resistência contra a imbecilidade profissional. Passa a ideia de um jornalista maduro que nunca abandonou as principais ferramentas de um bom trabalho. Não, não estou falando do Google nem do twitter, estou falando de curiosidade, perseverança e talento.
Talese, depois que sai a campo para investigar um fato, isola-se para escrever como se estivesse num bunker criativo. Dá imenso valor ao texto bem escrito, diz que não adianta colher informações se você não souber organizá-las de maneira que prenda o leitor. Considera o texto a peça final de um trabalho de sedução entre jornalista e público. Diz ainda que o jornalismo não pode ser uma ficção, mas pode ser literário, trazendo personagens, cenas e construções plasmadas pelo talento de um autêntico fuçador de notícias.
Autor de reportagens e perfis históricos, além de mais de uma dezena de livros, Talese é um dos últimos mitos do jornalismo febril. Uma pena que sob este aspecto, com toda tecnologia, tenhamos retrocedido à era glacial, em que a autêntica reportagem foi substituída por ''drops'' instantâneos da internet que os jornais copiam como uma fórmula, transformando a profissão num reduto de velocidade sem cérebro e loiras televisivas com microfone na mão.

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