Entre as coisas boas do ano que passou, foi marcante meu encontro com as memórias de Hilda Hilst. Sempre admirei sua poesia sensual e sua prosa escrachada, mas a surpresa foi me deparar com suas anotações de sonhos. A única maneira de reter um sonho é anotá-lo e HH sabia disso. Quem escreve está sempre na captura dos momentos, inconformado com a dissipação de tudo o que se vê e que, no instante seguinte, não está mais lá.
HH não era do tipo que mantinha um caderninho à cabeceira, escrevia com o que tinha à mão, papéis de cigarro, folhas soltas, cartões, espaços em branco de folhetos de eventos literários.
Tenho passado algumas tardes na companhia de HH. Ela não está mais aqui, deixou este mundo em 2004, mas interesso-me pela sua vida e tenho um respeito profundo pelos seus rastros: pedaços de papel, livros inteiros, poemas que reverberam um momento de amor, uma prosa livre, um manifesto em forma de peça teatral. HH nos deixou tudo isso e ainda suas anotações de sonhos. Confesso que me emociono a cada vez que toco naqueles papeizinhos, delicados demais para que alguém os pegue como quem pega uma flor. A memória é sutil, é preciso usar luvas para tocá-la e o ambiente frio do arquivo da Unicamp me conduz a uma sensação de frescor, embora os papéis estejam envelhecidos.
Emociono-me a cada vez que estou diante dos sonhos de HH, numa instância íntima. Ler anotações de sonhos é entrar por dentro de uma pessoa, é saber que aquela ''matéria'' vem de muito longe, do fundo, do inconsciente, e só está ali porque foi escrita, numa manifestação cultural que nos dá quase o impossível. Boa parte das civilizações estaria enterrada para sempre se não fosse a escrita. Os sonhos de Hilda seriam imagens perdidas se não fossem suas anotações. A letra acelerada mostra que era preciso anotar rapidinho para não perder pormenores, detalhes que desaparecem ao se abrir os olhos, sensações que desvanecem quando rompemos a seda do sono.
Esta semana, mais uma vez me vi diante desta matéria quase impalpável, a letra nervosa às vezes é substituída por pequenos desenhos e, puxa, como ela sonhava com pedras preciosas. Fala de diamantes e rubis, assim como fala de animais, casas, estradas, automóveis, vestidos e a presença constante da mãe que responde à Hilda como a gente passa de um lado a outro, da vida à morte, com a facilidade de quem entra e sai por uma porta.
HH não se impressionava apenas com sonhos, mas também com outros mistérios. Entre suas anotações, encontrei um hexagrama do I Ching, o oráculo chinês que devia estimular sua vocação para viver entre a pergunta e a resposta. O hexagrama que ela anota é o 62 , ele significa ''A Preponderância do Pequeno'', um recado para que a gente cuide dos pormenores. Neste hexagrama, a mensagem é de humildade, sem ostentação, e me lembro dos sonhos das pedras preciosas, comparando duas forças a lhe comandar o inconsciente: a riqueza no sonho, a humildade no oráculo.
Faça deste oráculo também um recado para 2012, vamos nos abrir à ''preponderância do pequeno'', nos ocupar dos detalhes, eles se tornam grandes com o passar do tempo, como as memórias mínimas dos sonhos de Hilda.

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