Algumas pessoas mantêm a serenidade para serem justas, evitando erros que podem maltratar os outros porque, afinal, elas têm coração: este órgão sensível que dói quando nos atiram pedras e queríamos flores.
Algumas pessoas tentam manter a gentileza em situações hostis, com o desconforto das insuficiências, carências, desejos desencontrados, coisas que se desmancham numa manhã sem luz, sem rastros de estrelas e todas as outras dádivas que fizeram parte de uma grande amizade.
Algumas pessoas procuram palavras que não firam, as melhores frases, quase um poema, mesmo quando sentem dor ou são desconsideradas nas pequenas coisas que fazem parte do ato delicado de viver.
Algumas pessoas não pisam nas outras para se manterem intactas ou preservarem seus interesses. Privadas de diálogo, fazem acordos consigo mesmas, tentam encontrar um canto sossegado, um ponto de equilíbrio, um caminho para as incompreensões brutas.
Algumas pessoas se expõem por acreditarem que as emoções não merecem boicotes, indiferença, trapaças, descasos ou esconderijos. Para estas pessoas, os sentimentos são o sal da vida, a expressão humana mais simples e mais complexa, um brinquedo que salta das caixas nos dando sustos porque são incontroláveis.
Algumas pessoas por parecerem águas tranquilas, permitem que as outras naveguem dentro delas sem grandes ameaças, com direito a mergulhos e nados livres, oferecendo peixes, seixos, um barco para a travessia.
Algumas pessoas nem sempre são compreendidas quando desejam tratar as feridas oferecendo um sopro, uma atadura, um chá que adormeça as dores e desperte em cada um o animal que se deita no colo porque é desprovido de resistências.
Algumas pessoas não se considerem melhores do que as outras, apenas se dispõem a olhar as perturbações de frente, sem disfarçar que sentem, porque a frieza não é sua medida.
Algumas pessoas dão tudo o que têm mesmo quando são esvaziadas, perdendo seu canteiro de flores, sementes para o amanhã, os sopros e os chás que nos tornam humanos no tratamento da dor desmedida.
O erro destas pessoas é não disfarçar emoções, ir ao mar de peito aberto, chorar com todas as suas águas, sem vergonha de ser gente, ainda que sejam um marinheiro inábil.
Estas pessoas às vezes deixam lembranças, um sonho que quase se alcança, uma saudade sem fim e uma porta que se abre na saída dos labirintos.

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