CÉLIA MUSILLI - Aproximações entre a arte e o sonho
O livro Liberdade ou Amor, de Robert Desnos (1900 1945) é uma abordagem sobre a fantasia no cotidiano, unindo vida e literatura. O conceito permeia toda produção surrealista, da qual Desnos foi um dos expoentes, juntamente com André Breton, Louis Aragon, Benjamin Péret, Paul Éluard e outros parceiros que integraram o movimento do começo ao fim ou alguns de seus momentos. Desnos faz parte de uma fase particularmente feliz da poesia francesa que se estendeu de 1924 a 1932, o que não impediu que o surrealismo adentrasse outras décadas, espalhando-se por outros países e continentes.
O que importa é revirar um pouco este repertório criativo que resultou em literatura, artes plásticas, cinema, arquitetura e o que mais servisse de suporte para uma revolução do olhar.
Costumo comparar a cena inicial de Um Cão Andaluz, filme de Louis Buñuel - com a impressionante imagem de uma lâmina cortando um olho - ao momento em que o Surrealismo inaugura uma nova visão sobre a realidade. Por acreditar que a arte deverá sempre nos levar além - através da abertura de um hiper mundo ou uma supra realidade -, gosto particularmente das expressões artísticas carregadas de conteúdo inconsciente: dos sonhos, dos lapsos, dos acasos.
Em 1937, Desnos chegou a ter um programa de rádio para interpretação de sonhos, além de ter se dedicado a programas de jazz e cinema. Trata-se de um período fecundo em que as artes convergem para movimentos, criando uma revolução paralela. As descobertas de Freud, incluindo-se aí a interpretação dos sonhos, deram motivo de sobra para criadores e intelectuais investirem em experimentações de olhos abertos ou fechados.
Este olhar para dentro, está num dos poemas de Desnos traduzido por Eclair Antonio Almeida Filho:
SONHEI TANTO CONTIGO
Sonhei tanto contigo que tu perdes tua realidade.
É ainda tempo de alcançar este corpo vivo e de beijar sobre esta
boca o nascimento da voz que me é cara?
Sonhei tanto contigo que meus braços habituados abraçando tua sombra à se
cruzar sobre meu peito não dobrariam a contorno de teu corpo,
talvez.
E que, diante da aparência real do que me ocupa e me governa
há dias e anos tornar-me-ei uma sombra sem dúvida.
Ó balanças sentimentais.
Sonhei tanto contigo que não é mais tempo sem dúvida que eu desperte.
Durmo ereto, o corpo exposto a todas as aparências da vida e
do amor e tu, a única que conta hoje para mim, eu
poderia menos tocar tua fronte e teus lábios que os primeiros
lábios e a primeira fronte que vieram.
Sonhei tanto, caminhei tanto, falei, deitei com teu fantasma que não
me resta mais talvez, e entretanto, senão ser fantasma entre os
fantasmas e mais sombra cem vezes que a sombra que passeia e
passeará alegremente sobre o quadrante solar de tua vida.
Há registros de sonhos feitos por Desnos desde 1916, o que indica que os sonhos serviram muitas vezes como material criativo. Artistas e escritores não desperdiçam nada que possa servir à sua função de redescobrir o mundo ou lê-lo com lentes especiais. Uma delas, muito além das lentes de fundos de garrafa, mostram o fundo de nós mesmos, num mergulho de onde podemos emergir com um o roteiro de um filme, um poema ou um livro de culinária. Muito melhor do que recalcar ou ocultar o sonho é aproximá-lo da vida conferindo a ele o "corpo" sutil da realização, muito além da realidade.





