Há alguns anos, deparei-me com um poema na internet sem título e sem autoria. Feito possivelmente por uma mulher, ele fala do homem, de um determinado homem, do homem amado, com descrições que me lembram, à primeira vista, as maravilhas dos Cânticos de Salomão.
Este poema ficou na minha memória, mas dele perdi a cópia. Até que um dia desses, procurando aqui e ali, como um pirata em busca do tesouro, deparei-me com ele num e-mail que enviei, comentando o quanto o achava bonito.
Este poema havia ficado na minha lembrança como um mapa perdido, uma oração esquecida num banco, uma mensagem dentro da garrafa, uma carta sem destinatário e sem endereço.
Por motivações subjetivas, o deixo aqui para que a beleza não se perca e também movida por um acaso do qual vou falar adiante.

Meu homem de cabeleira de ébano
De pensamentos de explosões de supernovas
De silhuetas de deuses

Meu homem de silhueta de boto cor de rosa em lua cheia
Meu homem de buquê de abismos de edelweiss
De dentes de desmanchar laços e galáxias
De língua de magenta e de morangos maduros

Meu homem de língua de estilete e sabor de tâmaras
De língua de sete idiomas de sete anjos
De língua de bem-aventuranças

Meu homem de cílios de impressão de nanquim da China
De sobrancelhas de tabaco de Havana
Meu homem de têmporas de vibrações de oboé
E pulsar de canário

Meu homem de ombro de arca sagrada
E de centímetros traçados com régua e esquadro
Meu homem de punhos de desconstrução de poemas
De dedos de secos e molhados e de confeitarias

O acaso me fez ver este poema com outros olhos quando, um dia desses, lendo um texto de Claudio Willer sobre o Surrealismo, percebi que o poema do qual desconheço a autoria parece a paráfrase de outro de André Breton, que fala da mulher amada. Troquei assim com Breton, sem querer, uma mensagem de garrafa, destas que flutuam, flutuam, até encontrar a praia. Segue o poema de Breton e, por enquanto, isso basta como mistério.

Minha mulher com sexo de alga e de bombons antigos/ Minha mulher com sexo de espelhos/ Minha mulher com olhos cheios de lágrimas/ Com olhos de panóplia violeta e de agulha imantada/ Minha mulher com olhos de savana/ Minha mulher com olhos de água para beber na prisão/ Minha mulher com olhos de lenha sempre sob o machado/ Com olhos de nível de água de nível de ar de terra e de fogo (parte final de União Livre, de André Breton)

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