Em temporada de São Paulo Fashion Week - SPFW, os noticiários trazem denúncias, além das informações corriqueiras sobre estilistas e tendências. Na imprensa, esta semana, alguns textos trouxeram um retrato mórbido das modelos cada vez mais magras que confundem os atributos do que seria ''beleza'' com um padrão corporal que beira à doença.
Um texto da Folha de S.Paulo impressiona ao descrever as tops da seguinte maneira: ''Chegou a um nível irresponsável e escandaloso a magreza das modelos nas semanas brasileiras de moda. As garotas, muitas delas recém-chegadas à adolescência, exibem verdadeiros gravetos como pernas e, no lugar dos braços, carregam espécies de varetas desconjuntadas. De tão descarnadas e enfraquecidas, algumas chegam a se locomover com dificuldade quando têm que erguer na passarela os sapatos pesados de certas coleções.''
As modelos muitas vezes não têm mais que 20 anos. Elas acatam uma ditadura estética que merece uma análise sobre o que move as mulheres a se adaptarem a regras que funcionam como uma tortura particular, feita por sua própria escolha a partir das exigências do ''mercado'', no qual quilos a menos significam mais chances de sucesso, pelo menos enquanto estiverem...vivas.
Nos corredores da semana de moda, segundo a imprensa, o que se vê são modelos que dispensam sucos e sanduíches, passando a beber exclusivamente cafezinho sem açúcar, que não engorda e as mantém ''ligadas'' para o corre-corre dos desfiles. O que parece um fenômeno da pós-modernidade, na verdade repercute a motivação implacável das mulheres que, ao longo dos séculos, correram atrás do que seria considerado um padrão de beleza, numa atitude francamente masoquista. No século 18, usamos desconfortáveis anquinhas de arame para deixar os quadris em forma de balão. Depois vieram os espartilhos que chegavam a prejudicar a respiração para nos deixar com ''cinturas de vespa''. Ou, mais recentemente, enchimentos para aumentar os seios ou dar ao bumbum uma falsa aparência arrebitada.
A impressão é que as mulheres se acostumaram ao sacrifício das falsificações que chegam absolutas ao nosso tempo, na forma de próteses de silicone ou procedimentos estéticos que, vistos sob outros ângulos, beiram à tortura, deixando no corpo marcas de agulhadas, inchaços e hematomas por um bom tempo depois de serem realizados.
Mas aonde as mulheres querem chegar? Em nome do que fazem sacrifícios que podem levá-las à morte e por que se arriscam tanto?
Responder a estas perguntas demandaria um mergulho nos oceanos do narcisismo humano, sintoma próprio da espécie que inventou o espelho para se mirar e se mirar, apaixonando-se pela própria imagem, ao mesmo tempo em que pergunta: ''Será que agrado?'', numa atitude que corrobora uma baixíssima auto-estima e a dúvida que assola cada mulher que vive para os outros.
Quando a imagem refletida é a feiúra dos braços esquálidos e das pernas de graveto, a certeza que se tem é que a humanidade e, em especial as mulheres, está passando da conta ao renunciar aos prazeres básicos que incluem o uso dos próprios sentidos como o paladar e o gosto de comer sem exagero, mas refinando nossas preferências por alimentos doces ou salgados, ácidos ou amargos. Ao perder a possibilidade de experimentar esta ''paleta'' de sabores, amputamos um sentido que existe para nos impelir ao ânimo, porque comer também é uma forma de estimular a vida.
Atitudes contrárias a esta necessidade, tão natural quanto respirar, trazem como consequência a imagem de pessoas cada vez mais tristes, porque não parecem felizes estas moças magras de dar dó, com olheiras profundas, peles pálidas, tez que imita os bonecos de cera. Elas refletem o automatismo de uma geração robotizada, em que a diversidade humana, rica em tipos altos e baixos, gordos e magros, perde espaço para uma padronização doentia, como este infeliz exército de meninas treinadas para agradar estilistas e grifes.
Na outra ponta do ''mercado'', os responsáveis por esta ''demanda'' se omitem a dar explicações e parecem não se importar com a baixa qualidade de vida que impingem às mulheres que trocaram, definitivamente, o prazer de ser por uma imagem distorcida de si mesmas. Elas desfilam por aí, enquanto podem, como uma legião de anjos descarnados ou a geração que se perdeu por um conceito ''fake'' de beleza.

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