CÉLIA MUSILLI - Anjos de neon
Uma foto de Walter Firmo trouxe-me de volta os anjos da procissão. Eles estão de costas, mostram as asas inteiras e, à luz da fotografia, um pedaço de lavoura à sua frente faz a gente pensar no paraíso. A partir da foto, desenrolei novelos de memória. Pensei na clássica imagem de um anjo, aquele que conduz duas crianças sobre uma ponte quebrada. Sob a sua proteção nada de ruim acontece e quem teve uma fervorosa mãe católica deve se lembrar deste quadro que penduravam nos nossos quartos na infância. Vestido de verde e rosa, era universal, tinha qualquer coisa da Mangueira, de samba eterno, de cantiga de roda, de música de ninar que, quando eu era pequena, transformava-se numa oração. Aquele anjo era sempre a última imagem que eu via antes de dormir.
Depois vieram os poetas, como Augusto dos Anjos que escreveu: "A esperança não murcha, ela não cansa/ também como ela não sucumbe a crença./ Vão-se sonhos nas asas da descrença/ voltam sonhos nas asas da esperança."
Anjo é sempre a última esperança quando estamos aflitos e acendemos velas, quando estamos contritos e lembramos da procissão de uma cidade bucólica como São Luiz do Paraitinga ou do interior do Norte do Paraná onde vi anjos brancos e azuis nas festas religiosas. Anjos deixam as crianças que vestem suas roupas ainda mais doces, nunca me vestiram assim, mas me lembro de vê-los com coroinhas de flores, mãos postas, asas empenadas que equivaliam ao conteúdo de pelo menos dois travesseiros. Meu último pensamento antes de dormir até hoje ainda vai para os anjos. Eles vêm numa prece que ensinei aos meus filhos: "Santo anjo do Senhor/ meu zeloso guardador/ se a Ti me confiou a piedade divina/ sempre me rege, me guarde e me ilumine/ Amém."
Às vezes penso também nos anjos caídos, em toda iconografia que a História da Arte deixa como alimento do espírito em nossa imaginação. As asas são o signo dos que desconhecem o limite do espaço, voam para onde querem, do céu à Terra, vencendo a distância em segundos. Quando você chamar, vem um anjo, para onde se virar, há um anjo. Eles estão ao nosso lado quando atravessamos pontes quebradas, tempestades que se formam de repente, estão nos pontos de encontro que só são possíveis depois das perdas. Não tenho dúvida que estiveram ao meu lado na gravidez e no parto, antes do qual tive um sonho em que os nomes dos meus filhos apareceram no ar. Acredite quem quiser, milagres acontecem, e às vezes se materializam da forma mais simples, como o nome dos filhos escritos na lousa etérea, sem moldura, feita apenas de energia luminosa.
Também vejo anjos quando velhos e crianças escapam do perigo, quando recebemos uma notícia boa, quando vem ajuda de onde menos esperamos, quando encontramos a solução de problemas complicados, quando dificuldades se desmancham e a gente tece um novo caminho para a mesma vida. Vejo anjos nas amigas que se chamam Angélica e têm um ar de confidente, além de rirem à toa. Vejo anjo nas asas dos pés de Hermes, o mensageiro, e no Cupido que tem sempre uma flecha guardada quando achamos que erramos todos os alvos na insegura pontaria do amor.
Vejo anjos quando penso em Boticcelli e Leonardo, quando leio que William Blake, aos nove anos, os viu pendurando lantejoulas numa árvore. Isso não vi, mas acredito que brilham no fim das estradas ou como neon nas saídas de emergência.
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