À luz da psicanálise, uma rejeição basal motiva o desejo das pessoas submeterem-se à violência, um masoquismo que causa estranhamento, uma submissão que nos faz pensar no que move um ser humano a procurar a dor, física ou psicológica, que está implícita em algumas relações. O que leva uma mulher que sofre violência doméstica a ficar com o marido? O que leva uma moça apaixonada a sofrer todo tipo de humilhação e permanecer com o mesmo namorado, como se a angústia da relação fosse o parâmetro da sua intensidade? Amor rima com dor? Ou este é apenas um padrão exagerado do romantismo explorado em livros, filmes e novelas que nos levam a associar a angústia com emoção intensa?
O desejo de sentir dor é um tema complexo. O que eu não sabia é que o sentimento de autodestruição, que permeia comportamentos humanos, não encontra paralelo no reino animal. Soube outro dia, por um amigo PhD em Biologia, que não há entre os animais comportamentos autodestrutivos. Ele derrubou minha teoria de que o instinto de morte seria extensivo às outras espécies me mostrando que, na verdade, na natureza tudo incita à vida. Assim, não achei caminhos para um poema que fazia sobre o suicídio, explicando as razões que movem pessoas a procurar o próprio fim. Nos bichos, segundo meu amigo, não há pulsão de morte, aquela teoria delineada por Freud num ensaio conhecido. Na verdade, esta teoria vem sofrendo revisões e, pelo viés da biologia, um inseto não se atira à luz para morrer, antes, ele procura corrigir suas rotas sob intensa luminosidade e acaba colidindo com as lâmpadas.
Mas volto aos humanos, suas perversões, pulsões e a extensão disso tudo, presentes também nas artes e na literatura. As personagens masoquistas como O, de Histoire d’O, escrito por Pauline Réage, ou Justine, de Sade, vivenciam a dor, mas não chego a ver nas heroínas masoquistas um triunfo. As personagens principais de Sade – Justine e Juliette – têm finais tristíssimos. O fim de Justine é horrível, ela é queimada por um raio enquanto vai à missa e Juliette, sua irmã, é a encarnação do mal: mata sua melhor amiga, empurrando-a para um vulcão. Mais detalhes desta história talvez soem indigestos numa crônica domingueira. Então, tomem o café em paz e lembrem-se: Sade era um autor apocalíptico, não integrado.
De qualquer modo, perversões e crimes não estão só na literatura, estão na vida. Vimos, na semana passada, a notícia estarrecedora de uma menina de oito anos que morreu de hemorragia depois da lua de mel com o marido de 40 anos, no Iêmen. A menina é uma vítima da violência consentida numa cultura arcaica. Uma cultura com um componente brutal aceito socialmente e que nem cogita o costume como um "mal." Fico pensando, a partir disso, de quanto mal se fazem as mais diferentes civilizações. Quantos crimes, quanta barbárie vistos não como perversidades, mas como tradição em países onde as mulheres são submetidas a violências pelos próprios pais.
Enquanto isso, do outro lado do mundo, milhares de mulheres emancipadas sofrem de amor, amor romântico, estes de filmes, livros, novelas. Algumas suportam maridos violentos, outras se submetem a namorados que as manipulam e chegam até ao suicídio. Diante de tudo isso, penso que neste mundo velho tudo ainda está para ser transformado. O casamento em alguns países - ou ali mesmo num estado do Norte ou do Nordeste brasileiro - continua sendo moeda de troca, com pais vendendo filhas. Enquanto em sociedades mais avançadas as mulheres protagonizam por livre arbítrio histórias d’O, marcadas a ferro e fogo por relações perversas e sem final feliz. Resta pedir, por favor: acordem meninas, amor não pode rimar com dor e nem prazer com sacrifício. Isso é um crime da cultura contra nossos corações de manteiga. Sofram menos e corrijam as rotas de modo a não se matarem na lâmpada dos costumes ou das emoções equivocadas. Lutem, ainda que seja consigo mesmas.

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