Entre pais e filhos existe a premissa de um amor incondicional. Teoricamente, haveria a garantia de que esta premissa não se perde quando acontece um divórcio. Mas na sociedade contemporânea, apesar de todo blábláblá, conseguimos, a duras penas, que pais separados consigam manter laços que vão muito além de um contrato de casamento. A impressão é que os conflitos sempre atropelam os afetos.
A sociedade está construída sobre valores que, em caso de divórcio, garantem as condições materiais para a educação dos filhos. Assim, pais, ou mesmo mães, pagam pensão alimentícia no caso de separação do casal. Mas não há previsão de uma educação sentimental que alimente o amor incondicional entre pais e filhos em caso de divórcio. Parte deste equívoco deve-se, talvez, à ênfase exagerada que se dá aos fatores econômicos que permeiam todas as relações ''modernas'' em detrimento das necessidades mais sensíveis. Numa sociedade consumista, exagera-se nas compras e economiza-se em matéria amor.
Muito além do alento da pensão que garante escola ou alimentação, os filhos sentem dificuldade em aceitar a separação dos pais e, às vezes, não compreendem que o pai continua sendo o pai e a mãe sendo a mãe. Acham que o amor que emana dos pais, em caso de separação, sofre a interferência da falta de um vínculo que se fortalecia com a dobradinha pai/mãe. Em caso de separação, cada um volta a ser um, mas esta condição de individualidade não precisa ganhar o contorno de um drama, dando a impressão de que uma fatia do amor estará sempre faltando no cotidiano.
A ideia da felicidade familiar foi cultivada a partir da imagem do pai, mãe e filhos sempre juntos. A família clássica contemporânea ainda presume a presença dos pais no café da manhã, nos passeios de domingo ou no ritual de dar boa-noite aos filhos. É inegável que após anos da prática de aconchegar as crianças entre os cobertores em parceria, quando um dos pais não está mais presente na hora do sono, resta a imagem doída do ''menos um'' que fragiliza os filhos e quem sobrou para cumprir o papel afetivo.
Aceitar a idéia de que ''meu pai não mora mais aqui'' é aventurar-se numa nova etapa, em que outra compreensão da vida familiar tem que ser colocada sem um pesar que pese tanto a ponto de interferir, além da conta, na situação emocional de todos. Substituir a imagem da família reunida pela imagem da ausência parcial é uma situação delicada que exige das mães, que normalmente ficam com os filhos, tato, coragem e perspicácia.
É preciso lidar com a realidade de ter menos um prato na hora das refeições, um armário onde não existem mais camisas e gravatas, um banheiro no qual falta o barbeador. Crianças se ressentem de tudo isso e há filhos, como relatou Fabrício Carpinejar numa crônica sensível, que se abraçam ao paletó do pai quando ''ele não mora mais ali.''
Apesar de toda ''cerimônia da ausência'', as mulheres podem tecer a nova situação com elementos menos dramáticos e lamentações menos dolorosas. Uma vez consumada a separação, resta lidar com a nova realidade. Força e auto-estima caminham de mãos dadas. É preciso se amar para amar os próprios filhos.
Pais e mães são as matrizes da condição emocional das crianças. Imprimimos neles nossa força ou fragilidade, de acordo com o modo com que reagimos às circunstâncias. Conheci famílias cuja mãe dramática imprimiu aos filhos a própria insegurança quando o pai foi embora. A elas caberia lidar com a ausência de um modo menos devastador, o que nem sempre é fácil. Neste caso, o investimento em análise ou terapias de apoio pode ajudar pais e filhos na construção de uma nova identidade familiar. Ao mesmo tempo, uma atitude mais positiva das mães divorciadas, pode ser complementada por uma atitude menos omissa dos pais, a quem não cabe apenas ''pagar a pensão'', mas manter com os filhos um vínculo afetivo, deixando de ser apenas um personagem que aparece nos dias de visita.
Este vínculo necessita bem mais do que o dinheiro depositado em dia ou telefonemas semanais para saber se os garotos vão bem na escola. Há de se criar um espaço onde a partida de futebol tenha vez, a sessão de cinema seja mantida, a aula de judô seja compartilhada e a cumplicidade não se perca.
Só mantendo a cumplicidade é possível recriar uma situação de afeto em que os vínculos básicos não são rompidos, dando lugar a uma família alternativa que não precisa ser, necessariamente, infeliz. Separações menos doloridas são possíveis quando a generosidade não perde espaço para o rancor e há chance de manter o amor incondicional. Fácil não é, mas não chega a ser impossível quando o que está na balança é a tal da felicidade, esta senhora que só atravessa a nossa porta quando a deixamos entrar, mesmo quando ela se identifica de forma diferente.

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