CELIA MUSILLI - Amizade em sincronia
Existem amigos que aparecem sem mais nem menos, como se ouvissem de longe o alarme das nossas despedidas. São aqueles que a gente nem precisa chamar, chegam com o vento, como um anjo escondido na folhagem, e que nos protegem quando o bicho vai pegar, a tempestade desabar e nos sentimos como um menor abandonado ou um adulto que perdeu a infância para sempre.
Eles não precisam ser daqueles que encontramos todos os dias no boteco, às vezes nem participam de nossas vidas, não são a regra no cotidiano, mas sua exceção. Só que, magicamente, como um clarividente que não anuncia as próprias habilidades, estão ali, para nos segurar a mão, no momento de atravessar a ponte. E que ponte! Pode ser vertiginosa como o vão livre da Rio-Niterói ou aquela sobre o Yangtzé, o maior rio da China, que conduz viajantes a novas fronteiras.
Eu tenho um amigo assim e acho que nem ele sabe que está sempre por perto nos momentos em que meu universo faz seu big bang. Porque a vida é isso, um eterno fluxo e refluxo, perdas e ganhos, marés que sobem e descem, pessoas que encontramos e desencontramos como tudo o que está escrito e também se apaga nas estrelas.
Eu o conheço há uns 30 anos e, um dia, num destes big bangs dos quais a gente conhece causa e efeito, lhe contei que ia viajar, lavar a alma numa cachoeira, ele falou: ''Vai e tira todas as cascas antigas do seu corpo. Mas aproveita e lava também a alma.'' Neste instante, percebi que ele estava ali torcendo para que a lagarta virasse, enfim, borboleta, e sua torcida era tão sincera quanto aquela que vibra em uníssono na última partida de domingo.
Esse amigo já me ensinou muitas coisas, e sua jornada, decerto, me deixou um mapa de conhecimentos. Me disse que jornalismo não é só profissão, mas paixão. Que a vida só vale com amor e que todos os impulsos nascem ali, na chama dos afetos que nos conduz como um lume para a frente, mesmo quando estamos no escuro.
Me falou sobre o valor dos filhos, da paternidade com cheiro de mãe e paciência de avô, das cantigas de roda, abraços que não terminam, gratidão que extrapola o tempo. Me levou a Reich, Confúcio, Leminski, Gandhi e Lupicínio Rodrigues. Misturamos todas as estações, inverno aqui, primavera ali, e a vida correndo como um rio em que, eventualmente, nos encontramos nos portos e depois cada um toca seu barco, porque somos nossos próprios timoneiros.
Ele me disse que política é apenas um modo de interferir na realidade e que a arte é a roda que move os sonhos. E que sonhos! Me ensinou a amizade como um valor real e me deu algumas pistas que me levaram a tribos e nações. Deixou na areia pegadas indeléveis e nas nuvens mensagens de que tudo se desenha e se desmancha.
Ensinou que o poder é apenas uma passagem e que a liberdade é não submeter nossas ideias a nenhum dono. Ah! Quanta conversa e quantas risadas. Quanto vinho e quanta macarronada. Quantas emoções no nascimento dos filhos, quantas comoções quando nos despedimos de nossos pais para sempre.
São amigos assim que me endossam as crenças, me acolhem na fragilidade e sopram a força como um vento que mantém a minha sorte no ar. A sorte de poder contar, em cada circunstância, com pessoas que estão por perto, quando a gente menos espera e se desespera. Ou quando a gente põe tudo na roda e celebra. Isto se chama amizade em sincronia. Estas pessoas são o avesso da solidão, aquelas que transformam a angústia em companhia, às vezes sem dizer nada, apenas dedilhando ao violão um antigo sucesso de Cartola.
(Texto dedicado a Bernardo Pellegrini que completou 51 anos esta semana)
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