Minha amiga vive em dois extremos: ou está apaixonada ou não quer ''nem saber de homem''. Na fase enluarada transborda, se enfeita, adia compromissos, usa brincos, se perfuma, elogia o dito cujo, transforma um vampiro em ator de cinema, dispara e-mails, despachos para o santo, enfim, fica totalmente possuída pelo vírus da gripe amorosa.
Difícil é encontrar o remédio, o antídoto, quando começa a enxergar a realidade, o infortúnio de ter se apaixonado por criatura tão insensível, tão sem coração, daqueles que faltam ao último encontro porque não têm coragem de colocar ponto final na relação preservando o carinho, a amizade, já que os desencontros são inevitáveis, mas também não precisa parecer que um dos dois foi abduzido depois do fim do namoro, indo morar em outra galáxia.
Sei que vocês vão dizer que em fim de namoro não tem amizade que dê jeito nos corações partidos, que a gente quer ver a sogra, a ex-sogra, o capeta, mas nunca mais aquele sujeitinho que jurava amor eterno e depois foi visto na balada com uma loirinha desmilinguida, muito pior que você, sem que haja a menor dúvida de que beijava o pescoço dela. Pois é, vampiros adoram cenas cinematográficas.
Despedida de amor dói, acompanhada do desenlace da traição dói mais ainda, mas minha amiga, que entra e sai dos namoros, bem que podia levar a sério aquela frase do Ministério da Saúde, adaptando-a ao contexto romântico e dizendo a si mesma: ''Amar demais faz mal à saúde.''
Mulher tem uma dificuldade danada para não repetir o passeio no trem-fantasma e acaba levando sempre os mesmos sustos. Repetem sempre as mesmas atitudes, os mesmos vícios, vendo o príncipe em cada sapo. Os enredos da minha amiga são aqueles mesmos, de novela: ''Ai, nem te conto, conheci um cara especial,vamos sair hoje, ele já me enviou cinco torpedos, desmarquei a viagem no fim de semana, fui tirar as sobrancelhas, depilar as pernas, a virilha, pintei os cabelos, vou fazer as unhas e tirei da caixa a lingerie vermelha.'' Quando ela fala em lingerie vermelha penso logo num semáforo comunicando: pare! Mas não tem jeito, ela já está tomada, possuída, em transe. Penso em procurar um pajé, um pai-de-santo, um pastor que ordene ''sai deste corpo'', mas ela se injuria tanto que me convence de novo a ir ao shopping para ajudá-la a escolher a roupa para o encontro.
O ritual se repete há anos. Perdi as contas de quantos vestidos compramos, quantas vezes a vi mudar a cor dos cabelos, do esmalte, usar perfume novo porque o velho lembra o ex, o defunto que levou meses para ser enterrado, até que outro namorado realiza o milagre e lá vai ela de olhos brilhantes, coração disparado, jurando que encontrou o amor da sua vida.
Quando ela fala dele, elimino cinquenta por cento dos elogios. Sei que não é tão bonito, tão inteligente, tão sensível, tão gentil como ela enxerga seu ideal de homem, aquele com o qual ela veste todos, até descobrir que o figurino é sempre maior que o galã e não cabe, as mangas são compridas, as calças se arrastam, os sapatos têm um número a mais nos pés da versão masculina da Cinderela.
Quando vem a descoberta da desproporção, do equívoco, surge a cena do desmanche da mulher apaixonada, lágrimas nos olhos, rímel borrado, roupa nova no fundo do armário, coração amassado como um Corcel 76.
O fim da ilusão acontece até mesmo porque nenhum galã aguenta uma mulher tão apaixonada, a ponto de cometer ''loucuras pelo nosso amor'', ao mesmo tempo em que dispara dez torpedos por dia ou telefona em setembro para saber ''onde passaremos o Natal''.
Na verdade, os anos até acabam bem, com réveillon na praia, com os amigos, com ela relembrando todos os grandes amores e despachando os antigos como aquele jeans que não serve mais. Nesta época, geralmente sozinha, minha amiga ''não quer mais nem saber de homem''. É quando fica mais divertida, mais solta e lhe dou, pela vigésima vez, um patuá com um dente de alho costurado no avesso e a camiseta com a frase: ''Amar demais faz mal à saúde.'' Ao que ela replica: ''Não amar também'', sem desgrudar o olho daquele homem lindo. ''Quem mesmo?'' ''O salva-vidas.'' E se atira sem saber nadar.
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