Mudo de Londrina na próxima quarta-feira, 17, vou morar no interior de SP, onde estão André e meus filhos. Como vocês sabem, o destino de vez em quando nos pega pela mão e não solta. É uma roda-viva, um redemoinho que aparece e leva a gente embora.
Desde já, carrego a saudade na bagagem. Vou ter que me acostumar com outro céu, sem as estrelas escandalosas daqui, e com uma noite onde vou demorar para encontrar amigos tão irreverentes, ''indecentes'', sensíveis e criativos. Para mim, o melhor de Londrina sempre foi sua paisagem humana.
Nos últimos 25 anos tive a sorte de morar em todos os pontos cardeais desta cidade, no sul e no norte, no centro e nos bairros. Flertei com suas avenidas, me vi no Lago Igapó, seu espelho d'água, nadando como a yara, a favor ou contra a corrente, dentro e fora de mim.
Por coincidência, destas que não se explica, sempre morei nos lugares por onde passam os aviões e me lembrei, cotidianamente, da valsa ''Londrina'', de Arrigo Barnabé, que retrata tão bem a cidade cabocla-cosmopolita (''Olha o avião!''), filha da mata, embalada por fluxos urbanos.
Levo de Londrina seu melhor cartão-postal: o de cidade-arte, que me ofereceu música, teatro e poesia, linguagens que me contaminaram em medidas diferentes e formam o caleidoscópio por onde passam minhas escolhas. Apesar de distante, mantenho aqui minhas atividades, voltando para os eventos culturais sempre que me chamarem e escrevendo as crônicas na FOLHA aos domingos, porque escrever é extrapolar os limites, inclusive os geográficos.
Sou ligada a Londrina pela palavra. Passei boa parte da minha vida aqui, como jornalista, e acho que acabei poeta graças aos meus amigos ''indecentes'', de quem vou me lembrar nas noites etílicas, quando vejo discos voadores, ouvindo ''London, London.'' Talvez eu tenha a sorte de uma nova cidade me tomar pela mão e não me sinta órfã. Por ora, sou despedida e saudade.
Na última quinta-feira, me despedi dos amigos no Cemitério de Automóveis onde, nos últimos anos, estacionamos nos dias de festa para ler poesia. Às vezes a vida desce leve como cerveja ou inconciliável como nos versos de Cecília Meirelles: ''Ou se tem chuva e não se tem sol,/ ou se tem sol e não se tem chuva!/ Ou se calça a luva e não se põe o anel,/ ou se põe o anel e não se calça a luva!/ Quem sobe nos ares não fica no chão,/ quem fica no chão não sobe nos ares./ É uma grande pena que não se possa estar/ ao mesmo tempo nos dois lugares!''
Mudar de Londrina é como sair ''emprestada'', dizer que um dia volto é desnecessário. No fundo, acho que nunca fuiiii... Embora Alice não more mais aqui.

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