Célia Musilli - Agora é tarde
PUBLICAÇÃO
sábado, 22 de fevereiro de 2014
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Minha amiga reclama da invasão de formigas. Diz que eram pequenas e cresceram, agora parecem "baratas adolescentes". Fiquei com medo só de pensar, quem dirá me deparar com um formigueiro em 3D. A natureza nos ilude, nunca sabemos onde estão as formigas, mas são milhares, convivem conosco até que passam a incomodar - como um elefante mas aí já deixamos passar muito tempo. Quando percebemos já guardamos açúcar na geladeira, latas hermeticamente fechadas, evitamos comer bombom no quarto, deixar farelo na mesa, escondemos até cera de depilação para ficar fora do alcance "delas", que adoram cantinas e salões de beleza, se acostumaram também com cheiro de esmalte. Formigas poderosas como o barato Fliti, viciado em inseticida nas tirinhas do Fernando Gonsales.
Caboclos da Amazônia me contaram quando estive lá: "O maior perigo da floresta são os insetos, não os bichos grandes." Falaram depois que pisei em formigas lava-pés na beira do rio e voltei com a perna inchada até o joelho. Urbana, tenho medo de jacarés e de formigas. Embora conviva com elas, como todos nós. Parecem um exército tomando conta não só do jardim, mas da nossa vida. Já vi formigas me espreitando nas frestas, esperando eu apagar a luz da cozinha para completarem o assalto à goiabada.
Agora, depois do verão seco, começou a chuvarada e as formigas ressurgem mais fortes, eclodem dos ovos que esperaram a gênese sem inseticida e nos ameaçam com o apocalipse no fundo da lata de biscoitos. Estávamos tão distraídos com a seca que esquecemos as formigas. Elas aproveitaram para a reprodução em massa, não há governo que dê conta disso.
A amiga que denunciou as formigas recebeu todo tipo de conselho para acabar com elas: espalhar cravos-da-índia no armário, fazer sachês com cascas de laranja e limão. Fui radical, aconselhei iscas compradas para espalhar no quintal, elas carregam as iscas para as tocas, as iscas explodem liberando um gás que mata o formigueiro. Confesso que meu método é terrorista, mas para lutar em pé de igualdade já explodi formigueiros.
Quando me mudei de casa, vi a maior correição de formigas atravessando a sala. Armaram a passeata do dia para a noite, quando vi a parede branca estava preta ou ruiva, eram formigas meio avermelhadas. Armada de inseticida e chinelos comecei um ataque, derrubei muitas, sobraram as que se esconderam dentro do sofá, sempre tem algumas espertinhas. Depois me arrependi, devia ter dialogado abrindo a negociação, o queijo seria meu, a goiabada delas, muito mais democrático. Mas neste tempo já havia rumores de esquerda e direita, evitei conversar com as formigas. Não sabia se eram integralistas ou stalinistas. Se fossem não iriam querer saber de conversa, partiriam logo para destruir a oposição e a oposição era eu. Mas passado o tempo, achei enorme burrice tê-las atacado com as havaianas. Isso não é arma que se use, desmascarei algumas ruivas e vi que eram ruivas mesmo, nada tão perigoso, apenas formigas um pouco maiores, como "baratas adolescentes." Na hora da crise as coisas sempre parecem grandes, a paranoia toma conta do quintal.
Pensando bem, aquela passeata de formigas começou de forma democrática, quase lírica, andavam em bandos, acompanhadas de fanfarras, cantavam e fotografavam tudo com celulares, pediam passagens grátis para circular nas paredes. Queriam ter voz, acalentavam utopias, mas pus a tropa de choque na rua, só faltou usar armas de fogo, mas chinelos de borracha davam conta delas.
Na verdade, o extermínio não adiantou muito, quanto mais reprimidas mais fortes. Hoje me jogam biscoitos das latas fazendo fusquinha, mostram a língua debaixo das máscaras pretas. Aumentaram em número e tamanho, aceitaram os Black Blocs na passeata pela simples razão de não portarem bandeiras e, no começo, eles livravam as formigas mais fracas do meu ataque militar. Black Blocs têm vivência de rua, não têm medo de nada, assustam porque são imprevisíveis, quebram bancos, martelam patrimônio público. Bem feito para mim que não entendi o recado das primeiras manifestações. Agora é tarde, o formigueiro anda por aí em 3D, como "baratas adolescentes" e, como disse, nenhum governo dá conta. Isso que dá querer acabar com formigas à força, passam a incomodar como elefantes. Fica a lição, repressão não amplia a democracia, alvoroça o formigueiro.


