CÉLIA MUSILLI - a,e,i,o,u
Sento na praça numa destas tardes abençoadas em que o tempo para e podemos enxergar e ouvir aquilo que nunca percebemos antes porque nos apartamos disso pela rotina. Só voltamos a pequenas coisas muito importantes quando readquirimos a possibilidade de pertencer ao dia, entregando-se a ele como quem nasce ao amanhecer, sem passado, sem futuro.
Num destes dias, em que o tempo para, estava numa praça quando a mãe de um bebê, com pouco menos de um ano, começou a soletrar em seu ouvido: a,e,i,o,u. A cena me prendeu imediatamente. Observadora da linguagem, apaixonada por letras, ver a mãe de um bebê lhe ensinar vogais causou em mim o efeito de uma magia, um mantra, as glossolalias de que falava Antonin Artaud e que são, simplesmente, a possibilidade de delirar com palavras, mesmo aquelas inventadas e que não fazem sentido.
Artaud, o grande mago do teatro e da literatura nos anos 30/40 do século 20, fazia poemas assim: ratara ratara ratara/ atara atara atara/ otara otara katara/ otara retaka kana. Se isso não diz nada para você, acredito que nem queria dizer para ele, no sentido de significar com clareza, de modo consciente, algo além de uma brincadeira com sonoridades, um experimentalismo com palavras ou a tentativa de invenção e apreensão de novos sentidos, mostrando que a linguagem é aquilo que fazemos dela.
No caso da mãe e do bebê, o sentido era outro. A mulher iniciava a menina nas letras pelo mais simples, os primeiros passos na articulação da fala e da escrita, o que não deixa de ser profundamente simbólico. A linguagem é aquilo que fazemos dela e sentidos se formam à medida em que nomeamos ações e objetos, dar um nome é dar também existência às coisas. Aquela mãe ao ensinar as vogais, ao mesmo tempo em que se divertia - rindo com as expressões da menina interessada no a,e,i,o,u - adentrava o terreno da linguagem articulada que certamente, mais tarde, irá derivar para a junção das letras, formando-se assim os sentidos das coisas do mundo.
Penso na importância das letras, das palavras e da linguagem frequentemente. Não estaríamos integrados à cultura se não articulássemos expressões que simbolizam as coisas que vivenciamos e com as quais interagimos. Tente dizer pedra, sem conhecer a palavra pedra. Tente dizer carro sem conhecer a palavra carro. Tente dizer chuva sem conhecer a palavra chuva. Uma série de gestos e associações seria desencadeada pelo simples fato de não haver uma linguagem que simbolize. Pensando nisso, reflito sobre o fato dos índios brasileiros falarem 184 línguas distintas. Uma riqueza cultural que de alguns anos para cá foi retomada com sua devida importância com os índios aprendendo a ler e escrever, pelo menos, em tupi-guarani. Literatura, música e documentos históricos já surgiram deste resgate e, decerto, outras medidas são necessárias para preservar um patrimônio que encerra a riqueza simbólica de um povo, suas tradições, sua cosmogonia, seus mitos.
A mãe ensinado à filha o a,e,i,o,u me levou a desdobrar tantos pensamentos e ideias que fui de Artaud às tribos indígenas. Os que conhecem a devoção de Artaud aos ritos antigos não estranham o paralelismo que faço. Ele queria retomar os ritos pelo teatro, viver em cena na acepção da palavra, compreendendo a vida como um ato constante de criação.
Outro poeta, Arthur Rimbaud, fez das vogais objeto de um poema, mostrando um modo inovador de utilizar palavras desde a primeira estrofe: A negro, E branco, I carmim, U verde, O azul: / vogais, de vós direi as matrizes latentes: / A, peludo corpete negro de luzentes/ moscas volteando em pútrido, cruel paúl.
Este poema já mereceu análise intermináveis, sendo adaptado a formatos multimídia para sintonizá-lo ainda mais com a contemporaneidade. É assim, no aprendizado e na articulação das letras em palavras, das palavras em sentidos que construímos o mundo, numa concepção conhecida e nem sempre identificada a não ser que a gente se disponha a, mais do que parar no tempo, viajar por ele, saindo da praça para ir às tribos ou a Paris pelo veículo mágico da linguagem.
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