Paulo Leminski nunca saiu de cena, mas voltou esta semana aos noticiários depois que o volume com sua obra completa – Toda Poesia, Companhia das Letras – bateu recorde de vendas, figurando em primeiro lugar no ranking da rede Livrarias Cultura.
Até aí, nenhuma surpresa. Leitores de Leminski aguardavam há muitos anos por isso. Mas seu brilho de samurai converteu-se em mais uma façanha depois que sua obra completa derrubou 50 Tons de Cinza, de E.L. James, do primeiro lugar dos mais vendidos. Posição que, há mais de um ano, provocava um desencanto e até certa vergonha em quem enxerga a literatura como coisa mais elaborada do que uma Sabrina erótica, esta que virou trilogia e se converteu no "manual sadomasoquista das donas de casa", segundo a mídia.
A obra completa de Leminski, segundo a apresentação da própria editora, reúne títulos clássicos como "Distraídos venceremos" e "La vie em rose", além de raridades como "Quarenta clics em Curitiba" e poemas fora de catálogo. Traz ainda apresentação da poeta Alice Ruiz - que foi parceira de Leminski - e posfácio de José Miguel Wisnik. Tem também um apêndice com textos de Caetano Veloso, Haroldo de Campos e Leyla Perrone-Moisés, entre outros.
Não vejo a hora de folhear as páginas do livro e reler poemas de inspiração pop como este do qual extraio um fragmento: "um fingimento deveras" (Fernando Pessoa), "criticismo of life" (Mathew Arnold), "palavra-coisa" (Sartre), "linguagem em estado de pureza selvagem" (Octavio Paz), "poetry is to inspire" (Bob Dylan), "design de linguagem" (Décio Pignatari), "lo impossible hecho possible" (Garcia Lorca), "aquilo que se perde na tradução (Robert Frost), "a liberdade da minha linguagem" (Paulo Leminski)...
Mas o bom mesmo vai ser a leitura do que ainda não conheço.
Sobre 50 Tons de Cinza, despedido esta semana da liderança no ranking dos mais vendidos, só posso dizer que a obra transformada por muitas mulheres em livro de cabeceira, por o julgarem transgressivo, não passa de literatura ruim. Não posso levar a sério um livro no qual a senha usada por uma submissa para pedir que o parceiro pare com seus jogos sexuais é "pirulito." Eu morreria de rir se tivesse que dizer esta palavra na Hora H.
Nos ônibus e metrôs vi muitas mulheres com o livro no colo, algumas escondendo sua capa como se estivessem cometendo uma subversão. Falando com elas, vi que, como leitoras, defendem o direito de fazer parte de uma confraria que deseja romper limites. Se é para romper de fato sugiro Sade, onde teriam banquetes de experiências levadas ao extremo com bom texto.
No entanto, insistem nesta Sabrina erótica que plantaram em sua cesta de consumo e pagam mais de R$ 60,00 pelo livro. Estas leitoras sonham com um sádico como Mr.Grey, o Dom de 50 Tons, milionário, elegante, perfumado. Basta uma visita virtual e rápida aos blogs dos que oferecem este tipo de parceria e nos deparamos com homens que não têm muito a ver com o príncipe do livro. Em sua maioria, são pessoas comuns. Alguns parecem dizer: "entrem em contato e entrego o gozo/doloroso a domicílio". Conheci mulheres que entraram numa fria comprando gato por lebre.
Um livro como 50 Tons oferece um risco previsível, abre caminho para coisas que não existem. Nada contra as escolhas de cada um, somos livres para optar por relações convencionais ou sadomasoquistas. O que não pode é o mulherio achar, e a subliteratura ofertar, a ideia de que todo Dom é classudo, um mestre. Como em qualquer campo, a picaretagem corre solta no sexo e o que não falta são sádicos amadores (risos) tão amadores quanto a escritora E.L.James e seu best-seller.

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