Oito da manhã, no pátio da universidade vejo a moça absorta em seu celular. Ela sorri, ninguém sabe do que, com os olhos pregados na telinha. Recebeu talvez uma mensagem do namorado, a foto de um bom momento, o clipe de uma música que adora.
Tudo o que sei é que o mundo não existe à sua volta. O mundo é uma tela de pouco mais de dez centímetros, onde cabem presente, passado e futuro.
O que seria um mero equipamento de comunicação tornou-se um objeto que concentra a vida cotidiana, a ponto de muitos passarem boa parte do dia com atenção máxima à ''janela eletrônica''. Fatos políticos chegam pelo celular, a economia às vezes gira em torno dele, o movimento da bolsa, a queda de governos, o lançamento cinematográfico, notícias de toda ordem e os sentimentos mais íntimos, da saudade ao beijo.
O que seria meio de comunicação ligeira transformou a vida das pessoas num ''recebe e envia'', tenho colegas que passam aulas inteiras conectados ao celular, configurados no ''silencioso'', enquanto dentro deles nenhum silêncio se estabelece, nenhuma pausa, a vida continua em ritmo frenético, em estado de alerta. Nesta hora nem Spinoza nem Kant são mais importantes que os sms. Isto cria um frenesi de trocas que nunca se interrompem e pergunto para onde foi o mundo de tranquilidades singulares, de intervalos em que as pessoas ficavam absorvidas em si mesmas ou num pensamento maior, num ato criativo.
A eletrônica nos transformou em plugados habitantes de um universo virtual e comunicadores de plantão, sem direito a descanso. Há quem não desligue o celular nem enquanto dorme, preferindo descansar pela metade, enquanto o amigo envia um sms só para informar que o boteco estava cheio ou a balada não estava boa. Coisas prosaicas transformaram-se em urgências.
Não sou do tipo que demoniza os recursos contemporâneos, adoro os meios eletrônicos, em alguma medida sou também dependente deles. Sem estes recursos, não escreveria às nove da manhã uma crônica que deve chegar ao jornal ao meio-dia. A instantaneidade me empolga e me mobiliza, mais que isso me ''liga''. Ainda assim pergunto onde foi parar o espaço da distensão, que nos faria agir com mais humanidade, com um cérebro menos eletrônico, mais ''configurado'' para uma seleção natural de mensagens e de informações. Estamos perdendo o botão biológico das escolhas, a percepção sensorial do mundo, uma pele sensível aos toques, não aos alarmes.
Às cinco da tarde no pátio da universidade, a mesma moça, no mesmo lugar, sorri para a celular, onde há árvores virtuais enquanto as folhas voam à sua volta sem merecer um olhar atento, de sensibilidade botânica, biológica, viva como as mãos que seguram o aparelhinho sofisticado, cheio de teclas e funções. É como se toda vida, agora, fosse um toque sensível sem epiderme, sangue e linfa de células eletrônicas.

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