CÉLIA MUSILLI - A vida no tablete
Sempre gostei de novidades e as da informática estão entre as minhas preferidas, fora os bilhetes de amor, as atitudes positivas dos filhos, o impulso de dar à vida um rumo novo, mudando de casa, de cidade, de profissão. Assim, experimentar equipamentos, entrar no mundo dos ícones infinitos, dos toques que abrem portais, da navegação que se faz sem sair do lugar é comigo mesma. A cada ano um desafio, um celular, um computador, um notebook e, agora, um tablete. Só que tinha me esquecido que, no começo, até se dominar a tecnologia, se acostumar com o brinquedo novo, atravessam-se etapas que vão do inferno ao paraíso.
Ontem achei que depois de mexer aqui e ali já estava em lua-de-mel com o tablete. Ah! Meu bem, vem cá. Comecei pelo básico, ligar, desligar, conectar pelo wi-fi ou pelo 3G, diminuir ou aumentar as letras sim, ainda prefiro as grandes aos emaranhados minimalistas sobretudo aprender a escorregar os dedos sem esbarrar no ícone ao lado ô praga - sem trocar v pelo c, i pelo u e assim vai. Apanhei e como, mas fui dormir mais ou menos satisfeita com meu desempenho, achando que já estava no purgatório do tablete até acordar hoje de manhã e perceber que nada mais funciona. Perdi a conexão, sabe-se lá onde, a autenticação do wi-fi não se completa, o 3G apresenta sinal mas as páginas não carregam, enfim, demônios eletrônicos me cutucam com seus megabytes.
Já senti vontade de esquecer toda esta tecnologia, voltar ao mundo simples e sem teclas, usar os correios em que se lambem os selos, a velha máquina de escrever, o telefone com fio, enfim, fazer o caminho de volta aos atos e controles manuais, destes que quase só dependem da gente, mas bem sei que é tarde, bem tarde, para esta crise de nostalgia que sentimos quando o tablete está sem conexão.
Sei que vou recomeçar a via sacra. Ligar para os serviços de atendimento ao cliente quase sempre ocupados, aguardar a mensagem eletrônica que vai me indicar qual ramal devo chamar, o pedido para que tecle meu CPF que sei de cor mas sempre se apaga, como a página do tablete, quando preciso urgentemente me lembrar dele selecionar, enfim, a opção desejada, até que uma funcionária educada, destas com "voz de aeroporto", me diga calmamente: "A senhora precisa desligar tudo e reconectar para iniciarmos a verificação". E nunca sei se largo o telefone e pego o tablete para desligar e ligar de novo ou largo tudo ali, no chão, e esqueço esta vida de internauta, esta neurose do século 21, este purgatório com incursões eventuais ao inferno, embora saiba que, teimosa, vou tentar reconectar de novo. Enquanto isso meus filhos, que me dão lições de tecnologia falando a língua típica e sacana dos adolescentes, ficam zanzando por aqui para assistir ao meu show de dificuldades enquanto dizem: "Não é possível, mãe, mexer nisso é fácil". Fácil era acordar com os passarinhos, filho, e sem Twitter. Mas vamos lá. Porque sei que depois vem a lua-de-mel com um equipamento novo, coisa muito gostosa quando a gente se acostuma e desliza os dedos como músico que acaricia o piano depois de dar marteladas.
Em tempo, enquanto escrevia esta crônica no notebook que já foi meu inferno eletrônico, aguardava o horário para ligar para o 0800 e decifrar mais este enigma, esta placa levíssima que não pesa na bolsa mas inferniza meus dias até que tudo se pacifique, com navegação tranquila, até minha próxima viagem: trocar o tablete por alguma novidade porque o mundo gira e eu não sou de ficar parada. Até lá, resta rodar a baiana com o serviço técnico e de atendimento ao consumidor. Que Deus dê paciência a mim e aos vendedores de tabletes. Amém.
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