Olhei no espelho e descobri que estou ficando velha. Meu espelho é minha geração e, nestes dias de manifestações públicas, percebi que alguns amigos revolucionários não querem mais a revolução. Envelheceram e saem por aí criticando os "jovens baderneiros que deixam cacos pela rua". Em outras palavras, os leões rugem exigindo dos jovens protestos cordiais.
No meu excesso contíguo aos excessos, já evoquei até a velha dama, lembrei-me da Revolução Francesa, quando a revolta levou vítimas ao cadafalso, com seus pescocinhos a prêmio. A dama também cometeu terríveis enganos.
Mas o tempo passou, a História mudou e sinto informar que adveio um medo enorme da revolução, de qualquer agito que tire das ruas o bolor do conformismo misturado aos avisos das placas de trânsito: "Siga em frente!" É que hoje sinalizar o "siga em frente" aos jovens paulistanos é uma ofensa aos revolucionários de ontem que querem um movimento político como uma procissão, com todos enfileirados, disciplinados, falando baixinho as palavras de ordem para que ninguém se abale na hora da novela. Só faltam exigir: "protestem sem gritos!"
No dia seguinte – plim, plim – o apresentador de sempre está a postos. Então, fala o governador, o prefeito, falam os donos das empresas de ônibus, falam os ditos cidadãos respeitáveis, mas ninguém dá muito espaço à palavra dos jovens. A ordem geral é: "discordamos veementemente dos baderneiros". Tudo embutido na mensagem cifrada: "o país deve seguir cabisbaixo, inclusive nos protestos". É que as pessoas de bem não querem cacos, não querem ruídos, não querem gritos, querem talvez a paz eterna dos cemitérios de onde nunca se levantam os zumbis.
Mas chega um dia em que a História vem cobrar a sua parte. Ela nos encara através de um jovem de vinte e poucos anos que pergunta: "E aí? Vamos concordar com todas as imposições de aumento, abaixar o rabo como ovelhas que cabem direitinho nas catracas, suportar governos que se fundem com empresários e gozam de benesses que duram 20, 30, 40, 50, 100 anos?"
Alguém me pergunta se 20 centavos a mais nas passagens de ônibus valem mesmo uma revolução. Eu rio. Só posso rir da desatenção de quem não pergunta qual é o cerne desse protesto. Não são os 20 centavos, talvez sejam os últimos 50 anos de aumentos compulsórios, taxas absurdas, juros altos, mensalidades impagáveis de ensino caro, saúde fajuta, inflação embutida no preço do sorvete, falta de grana para as férias de julho, oito horas de trabalho de dia e cinco aulas ininterruptas à noite até que os corpos jovens se tornem adultos cansados, plasmados no amálgama da máxima produtividade para o máximo consumo. Há uma civilização triste vagando por um planeta cada vez mais deserto e sem utopias.
Fico pasma. Quando alguém num protesto pula o muro, desafia a autoridade, canta mais alto do que pode suportar nosso "ouvido de novela", deixa uns cacos pela rua e enfrenta a polícia que lhe joga bombas, aparecem uns revolucionários de ontem, numa ressaca danada desses "tempos de democracia", exigindo que "a juventude baderneira seja disciplinada". Eu já prefiro abençoá-la, ungi-la com o óleo esquecido da liberdade, dar graças a Deus por carregar a esperança, ainda que seja utópica, para sair em festa, deixando no asfalto além dos cacos, alguma poesia, esta matéria-prima dos sonhos que impede o cidadão-cordeiro de ser trancado definitivamente nos currais.
Prestem atenção. A luta pelos 20 centavos a menos nas tarifas de ônibus de São Paulo é muito mais do que o valor de duas moedas, significa um sonoro "fora" aos abusos dos governos e partidos que promovem retrocessos, um atrás do outro, da homofobia ao estatuto do nascituro. 20 centavos a menos é o símbolo minúsculo, a gota d’água da contrariedade que estamos engolindo e que chegou ao limite. Então, que os revolucionários de ontem não se assustem nem menosprezem o poder dos jovens: a revolta sempre foi barulhenta, febril e nunca coube mesmo nas catracas.

[email protected]

mockup