CÉLIA MUSILLI - A química do amor
Esta semana, assisti a uma entrevista da antropóloga norte-americana Helen Fisher na Globo News. Ela estuda os relacionamentos humanos, especialmente os amorosos, e tem uma explicação muito interessante para a falta de amor no mundo: diz que as pessoas que mais amam são aquelas que fabricam mais dopamina. Diz também que hoje temos uma sociedade em crise amorosa e isso tem uma explicação: com o grande número de depressivos que existem por aí, faz-se também amplo uso de antidepressivos que, por sua vez, inibem os níveis de dopamina no corpo. Logo, sem dopamina, nos apaixonamos menos. De forma simplificada, a falta de dopamina seria a causa da antipaixão ou do revés do romance.
A partir do papo de Helen Fisher fui atrás de mais informações e vi que num de seus livros - ''A Natureza e a Química do Amor Romântico'' - ela investiga o que acontece no corpo quando nos apaixonamos. Não, não se trata apenas de ouvir sinos tocando ou sentir borboletas no estômago. A Dra Helen tem uma explicação científica: o amor romântico está associado a vários fatores químicos, mas o principal seria o alto nível de dopamina, como já disse, e o baixo nível de serotonina. E sabem o que significa baixa atividade da serotonina? A deflagração do que chamamos pensamento obsessivo. É, senhores, significa pensar loucamente no ser amado.
Mas a Dra não para por aí. Concluiu que existem três sistemas cerebrais diferentes associados ao sentimento que todo mundo experimenta, pelo menos uma vez na vida: o primeiro é o impulso sexual; o segundo é o amor romântico, estágio intenso de sentimentos obsessivos associados ao parceiro; o terceiro seria a sensação de segurança que você sente quando vive com alguém por muito tempo.
Para chegar a tudo isso, ela investigou um grupo de 32 pessoas apaixonadas e suas ideias sobre o amor romântico renderam um capítulo à parte. Primeiro quis saber quanto tempo as pessoas pensam no ser amado e, claro, a resposta só podia ser uma: dia e noite. Ou seja, você acorda e pensa no seu amor, toma café e lembra dele como um expresso para a felicidade, almoça e desenha o nome do amado com o macarrão, vai dormir e diz ''boa-noite, meu querido'', ainda que seu amor esteja a mil quilômetros de distância. Dorme e...sonha com ele. Sim, o tal do amor parece feitiçaria, mandinga, TOC (para quem não sabe, Transtorno Obsessivo Compulsivo) ou qualquer coisa associada à dedicação exclusiva a um sentimento. E, haja coração!
Não é preciso dizer que os apaixonados têm mãos suadas, sofrem de taquicardia e concentram-se absolutamente no seu objeto de desejo. Sim, os que são tomados pelo amor romântico, amam uma pessoa por vez e só querem saber dela. Logo, quem está loucamente apaixonado permanece fiel, ainda que leia Sartre e Simone.
A Dra Helen ainda diz que o amor romântico atravessa o tempo. É encontrado em poesias antigas e chega até nós em telenovelas que nos apresentam os Rajs e Mayas da vida, com o capricho de um conto de fadas que tem lá seus conflitos mas, pelo menos na telinha, termina sempre com final feliz.
Na real, as coisas não acontecem de forma tão mágica. Há desavença e ira, ofensas e vingança, grandes histórias de amor podem terminar num desfecho de dar dó. Mas mesmo quando tudo termina mal, podemos nos apaixonar de novo e o resultado em nossas vidas é que ainda que tenhamos várias pessoas no balanço final, o sentimento sempre será um só.
Mas comecei falando da crise da paixão, da derrocada do amor romântico por falta de dopamina e retomo o tema para dizer que outra coisa chama minha atenção nos estudos de Helen Fisher. Ela diz que os melancólicos são também mais criativos, porque criatividade significa mais dopamina no cérebro. Ela seria, de certa forma, a droga da paixão e da inspiração, o que nem sempre significa felicidade. Segundo a antropóloga, estaria aí a explicação para os poetas se tornarem mais criativos quando estão tristes. Eu não deixo de pensar que grandes poetas, como Baudelaire, sempre foram angustiados. E me divido com a seguinte questão: o que, afinal, mais deseja um poeta, escrever bem ou ser feliz no amor? Ah! Se a gente pudesse escolher ou, melhor ainda, ficar com as duas coisas.
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