O escritor belga Pierre Louys (1870-1925) escreveu esta semana uma carta do além. Morto há muito tempo, sem muitos leitores no Brasil, manifestou-se por causa da onda de terrorismo contra seu livro "Manual de Boas Maneiras Para Meninas", escrito em 1917, como uma sátira aos manuais de etiqueta destinados às moças da aristocracia no século 19.
Tudo começou quando o justo movimento contra o preconceito que atinge as mulheres - demonstrado numa pesquisa que ligou o estupro à forma como o sexo feminino se veste - derivou para uma mensagem no Twitter indicando um trecho do livro de Louys, falando de estupro, como um atentando ao direito e à igualdade feminina hoje. Uma internauta reproduziu uma frase do livro e, de forma descontextualizada, desencadeou um movimento contra a obra e o autor morto há quase um século.
Dou todo meu apoio ao movimento das mulheres que defendem a liberdade de vestir o que quiserem, não acho que decote ou saia curta justifiquem serem atacadas por brutamontes. A ideia de que alguém "merece" o estupro traz consigo um preconceito enorme que tenta explicar o machismo e a violência como fatores desencadeados por um apetite sexual masculino incontrolável diante do corpo feminino descoberto. Nada mais falso. Nos países onde as mulheres usam burka ou sari, os índices de estupro são altos. A Índia, infelizmente, tem apresentado casos escabrosos de violência às mulheres, inclusive com estupros coletivos, com hordas de marmanjos atacando moças à luz ao dia. Não creio que isso seja uma questão de indumentária, mas de mentalidade cultural atrasada.
No entanto, o trecho de um livro gerou uma onda descontextualizada de protestos femininos, levantada por mulheres que chegaram a propor a retirada da obra do mercado, inclusive responsabilizando quem a patrocinou – no caso, uma conhecida marca de cerveja – como uma empresa que estimularia a violência contra a mulher. Detalhe: esta edição do "Manual" foi publicada no Brasil em 2009 e só agora as puristas tomaram conhecimento disso. Ou seja, não conhecem a obra, não leram, leem o Twitter - tomam as bobagens que escrevem por lá como verdade – e saem em guerra contra autores, propondo censurar literatura.
Senhoras, percebam a distância entre a fantasia crítica de uma obra literária e a realidade que faz mulheres serem discriminadas em casa, na rua e no trabalho de forma bem menos glamorosa do que numa crítica às etiquetas. Respeito o feminismo inteligente, mas a tendência de julgar obras transgressivas como atentados à igualdade é coisa de gente que não lê ou lê mal. Se soubessem o que Sade fez com Juliette, o buscariam no inferno para queimá-lo em outra fogueira e nem sei o que é pior: se o demo ou o moralismo vesgo.
No Brasil, a obra de Louys teve uma edição em 2006 pela editora Azougue, que cometeu o "pecado" de publicar uma sátira às "boas maneiras femininas". Não compreender uma sátira foi a gafe que desencadeou reações equivocadas. O discernimento deve ser a primeira coisa a ser exercitada por quem quer fazer política, intervir na cultura, mudar costumes. Não será proibindo livros, censurando Louys ou Sade, que vamos avançar, ao contrário, tendemos ao obscurantismo com atitudes de linchamento a obras literárias, quando são elas que nos dão parâmetros críticos. A literatura, o teatro, o cinema sempre tocaram em temas tabus – pedofilia, estupro e sexo coletivo – para provocar a reflexão. A arte, já ensinava Freud, também promove a catarse, quando não a sublimação, de impulsos e instintos, às vezes violentos. É tudo uma representação e não será proibindo minissaias e livros que os índices de estupro vão diminuir. Isso se faz com educação, clareza, legislação, não com censura. Se mães e pais dessem aos filhos uma educação esclarecedora, haveria menos machismo. Igualdade dos sexos é também uma questão de formação básica que se reflete na sociedade como um valor ético forte. Nunca vi atitude mais jeca do que querer proibir livros. Coisa impensável no século 21, isso me lembra atitudes xiitas dos que querem proibir a leitura de obras clássicas em países marcados por atraso cultural e com altos índices de estupro, inclusive coletivo. Depois de tudo, a pessoa que postou bobagens no Twiter pediu desculpas à editora e Louys voltou para o além, mas deixou também seu protesto.

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