CELIA MUSILLI - A pele das sílabas
Alguns textos me impressionam, são aqueles que me tocam tão intimamente que é como se eu os estivesse escrito. De vez em quando, passo por uma experiência assim, que me leva ao fundo, a um mergulho entre sílabas e frases, construídas como se reverberassem numa paisagem dentro de mim. Está tudo lá, montanhas e vales, rios e cascatas e pergunto se o autor é meu ''eu desconhecido''.
O fato é que alguns textos me levam para o fundo, eu caio num buraco, ou flutuo como se me dessem asas. Esta experiência também se repete na música, no cinema, no teatro. Mas fico especialmente impressionada com a capacidade de um único texto revelar minha pessoa, minhas meias verdades, meus medos, minhas dúvidas. Neste sentido, a literatura me assombra, porque me pega pela linguagem, pelos pensamentos que parecem meus, ''puxados'' ali por outra pessoa, como um peixe que se debate na ponta da linha.
Então, caio num transe que pode ser também conflituoso, quando além da beleza, passo pelo triste e o feio. Não queria dar tanta importância a estas coisas, mas há dias em que elas crescem como musgo e me cobrem. A literatura é tão viva que caio na ficção que filtra a realidade, às vezes me mostrando o que há de mais bonito ou dolorido sob a pele das sílabas.
Entre os textos que me tocam, há um poema transcriado por Ezra Pound, simples como a chuva, e que me emociona a cada vez que o leio. Ele fala da saudade de uma mulher e de sua esperança. Enquanto o tempo passa, suas emoções misturam-se à paisagem de uma aldeia oriental.
A mulher do mercador do rio: uma carta
(Poema de Rihaku transcriado por Ezra Pound)
No tempo em que meu cabelo caía reto sobre minha testa,
Eu brincava ao pé do portão da frente, colhendo flores.
Vínheis então montado em pernas de bambu, brincando de cavalo.
Ou caminháveis em torno do meu assento, brincando com ameixas azuis.
Assim íamos vivendo na aldeia de Chokan:
Dois pequeninos seres, sem rancor nem suspeita.
Aos catorze anos desposei Meu Senhor, Vós.
Rir é que nunca pude, pois sou tímida.
Baixando a cabeça, contemplava a parede.
Ao chamarem por mim - mil vezes - nunca olhei para trás.
Aos quinze parei de fingir-me zangada
E desejei que meu pó se misturasse ao vosso
Para sempre e para sempre e para sempre.
Por quê haveria de subir ao mirante?
Aos dezesseis viajastes
Fostes para a longínqua Ku-to-yen, à beira do rio dos redemoinhos,
Cinco meses já se vão que estais ausente.
Doloroso é o barulho dos macacos lá em cima.
Arrastastes os pés quando partistes.
Ao pé do portão, agora, cresceu musgo, diversas espécies de musgo,
Enraizados demais para que possa arrancá-los!
As folhas caem cedo este ano, com o vento.
As borboletas aos pares já estão amarelas de agosto
Por cima da grama do jardim poente.
Elas me magoam. Estou ficando mais velha.
Se voltardes pelos estreitos do Rio Kiang,
Mandai-me dizer a tempo
E viajarei o mais longe que possa ao vosso encontro
Pelo menos até a altura de Cho-fu-sa.
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