CÉLIA MUSILLI - A morte da estrela
Norma Bengell morreu no último dia 9, aos 78 anos. Admirava sua coragem, a beleza enigmática, a versatilidade como artista. Começou na música, gravou João Gilberto e Tom Jobim, mas no cinema passou à estrela de primeira grandeza no fim dos anos 50, quando foi descoberta por Carlos Manga num show de vedetes de Carlos Machado. Estreou em 1959 no filme "O Homem do Sputinik", tinha 24 anos.
Em 1962, inaugurou o nu frontal nas telas brasileiras ao lado de Jece Valadão em "Os Cafajestes", de Ruy Guerra, considerado o filme que deu os primeiros passos em direção ao Cinema Novo. Ao todo fez 64 filmes, incluindo o clássico "O Pagador de Promessas", de Anselmo Duarte, que ganhou Palma de Ouro em Cannes, e "A Idade da Terra", de Glauber Rocha. Foi exaltada na França, ganhou críticas favoráveis nos "Cahiers du Cinema", trabalhou com Jean Genet, conheceu Visconti, Fellini e Pasolini, namorou Alain Delon. Uma vida e tanto. Um estrelato comparado ao de Jeanne Moreau com quem, inclusive, se parecia um pouco fisicamente.
Nos anos 60 no Brasil, Norma teve problemas com a ditadura, uma vez foi presa e intimada a dar o nome dos comunistas do meio artístico, negou a informação nos interrogatórios e depois afirmou: "Se soubesse, eu não diria, porque a gente não pede carteira de ideologia".
No teatro encenou de Beckett a Nelson Rodrigues. Fez pouca televisão, coisa rara para uma atriz de sua geração, era essencialmente do cinema. Também dirigiu filmes como "Eternamente Pagu", com Carla Camurati, e "O Guarani" que lhe deu problemas junto ao Ministério da Cultura que alegou falhas na prestação de contas. Este episódio marca o início de uma fase difícil para Norma Bengell. Sob suspeita, deu muitas explicações, mesmo assim foi acusada de evasão de divisas, apropriação indébita e lavagem de dinheiro.
Em 2007 passou por depressão após perder a amiga e companheira Sonia Nercesisan, com quem viveu por 35 anos. Em 2010, sofreu uma série de quedas e passou a ter problemas de saúde, tudo isso culminaria num câncer de pulmão que determinou sua morte.
Revendo uma entrevista para a TV, com Norma já envelhecida e em cadeira de rodas, fiquei pensando como é estranho O apagar das luzes de uma estrela. Norma viveu os últimos anos em grandes dificuldades financeiras. Mas mesmo no fim mantinha a personalidade. Na entrevista chega a chorar, fala das angústias, mas também deixa clara sua gratidão por tudo o que teve na vida e não foi pouco. Mais do que ser ícone do cinema, ela deixa um exemplo de coragem inclusive por aceitar papéis ousados como o de Leda, em "Os Cafajestes", uma moça que convive com dois playboys que jogam pesado com as mulheres. O filme de Ruy Guerra, muito criticado nos anos 60, na verdade é um libelo contra a opressão feminina.
Hoje, quando o nu não passa de mais um artigo de consumo, o filme ecoa como um chamado à consciência ou a evocação de valores perdidos, abordando inclusive o estupro. Norma Bengell foi a atriz que tocou o alerta geral quando aceitou um papel considerado quase pornográfico e que, no entanto, dá uma sacudida na hipocrisia geral que invadiu as décadas seguintes. Dificilmente hoje se vê uma crítica tão contundente ao fato da mulher ser vista como objeto. Norma Benguell, com sua nudez inaugural, mostrou há mais de 50 anos a profundidade que teria esta ferida. Foi muito corajosa ao encarnar contradições, tirando roupa para vestir um manifesto.
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