Sempre achei que a principal prova da minha existência é o corpo. O resto é metafísica, religião, dogma, não o que se toma por "realidade." E não é difícil perceber que duvido até da "realidade", assim, entre aspas. Até por isso olho muitas vezes no espelho, para ter certeza que estou aqui mesmo. Outro dia deparei-me com um texto do filósofo Michel Foucault - O Corpo Utópico - que toca no tema que sempre pensei em desenvolver e do qual agora encontrei um belo desdobramento.
Os enfoques de Foucault são muitos, mas acho especialmente importante o fato dele considerar o corpo um lugar utópico, porque tem partes visíveis para nós mesmos e por todos que nos veem pelo lado direito e esquerdo – aliás, noções que se adquire a partir do corpo. E há partes invisíveis para nós mesmos, como a nuca, que só podemos enxergar em exercícios que demandam manobras.
No espelho, diz Foucault, o nosso corpo é um fantasma, e penso o mesmo da fotografia porque o corpo refletido não é o corpo, mas sua imagem que adquire contornos fantasmagóricos numa projeção sem existência. O corpo no espelho equivale a um espectro de nós mesmos.
Interessante a percepção do filósofo de como revestimos o corpo, dando-lhe novos sentidos. Com roupas religiosas ou profanas, militares ou civis modificamos completamente nossa identidade, somos muitas vezes reconhecidos pelo que vestimos e a roupa às vezes adquire uma importância maior que o corpo, o que considero uma pena. Importam-me mais as essências e uma delas é o corpo, assim mesmo, como viemos ao mundo.
O corpo é motivo de alegria ou de vergonha. Experimentamos melhor o sentido da afetividade quando alguém nos toca. Tímidos, quantas vezes não escondemos o corpo? Lembro-me da vergonha que sentia ao usar vestidos de alcinhas na infância, sabe-se lá de onde vem um pudor tão pueril quanto inútil. Na verdade, não é só pelo corpo que nos revelamos. O corpo é feito de gestos, atitudes, palavras, todas as funções que nos dão vida e nos movem dentro da concepção de ser livre ou prisioneiro a partir do que expressamos fisicamente.
A mim interessa especialmente o que está dentro do corpo, como o pensamento, que depende de ligações e neurônios para que ocorra e tome existência. Nas minhas fabulações fico imaginando se depois da morte vou manter o pensamento vivo, um sentido de individualidade e se, na hipótese de haver outras realidades, outros mundos, se vou levar para lá minhas sensações de corporeidade.
O ensaio de Foucault abre espaço a essas elucubrações e também fala da alma: " (...) talvez, a mais obstinada, a mais poderosa dessas utopias através das quais apagamos a triste topologia do corpo nos seja administrada pelo grande mito da alma, fornecido desde o fundo da história ocidental. A alma funciona maravilhosamente dentro do meu corpo. Nele se aloja, evidentemente, mas sabe escapar dele: escapa para ver as coisas, através das janelas dos meus olhos, escapa para sonhar quando durmo, para sobreviver quando morro."
Um dos trechos mais bonitos do filósofo é quando ele dá sentido ao corpo a partir daquilo que nos faz ter a certeza que existimos: o espelho, a morte – que imobiliza o corpo – e o amor, a melhor dádiva a nos dar a certeza da vivência. Tudo isso porque essas três coisas, entre tantas, retira do corpo a sensação de objeto utópico, porque são elas que nos reificam. Estou aqui e agora e quem me confirma a ocupação deste espaço no tempo é o meu corpo, objeto de afeto que deu a vida, filhos e a suprema alegria.

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