CÉLIA MUSILLI - A herança da imaginação
No Dia das Mães resolvi falar do pai. É que na semana que passou me emocionei com um acontecimento. Estava conversando na rede social com o Gustavo, um dos meus filhos gêmeos, falava com ele sobre Antonin Artaud, sobre poesia e magia, então falei em glossolalias uma categoria de escrita de Artaud que rompe com a associação comum do signo e do significado, feito de palavras esquisitas, combinadas pelo seu poder sonoro. Meu filho associou imediatamente o que eu dizia ao "falar em línguas". Na mosca. Fiquei feliz pelo grau de compreensão que ele tem das coisas aos 18 anos. A única herança que faço questão de deixar aos meus filhos é a procura do conhecimento. Uma herança que recebi do meu pai para quem não passavam batidos nem pedaços de jornal, lia tudo que encontrava. Lia em voz alta para a gente, adorava livros.
A conversa com meu filho mexeu camadas "geológicas" dentro de mim. Carrego muito de meu pai, que tinha uma biblioteca modesta, só uma estante com portas de vidro, mas que ocupava um espaço importante na casa. Tinha também um baú sempre fechado no qual ele dizia guardar uma máscara de palhaço, o que em vez de causar efeito lúdico nos metia medo, assim nunca mexíamos nos livros esotéricos guardados naquele baú sem chave, mas que nos mantinha à distância pelo mistério. Meu pai era cheio de imaginação. Meu pai era um leitor que também criava histórias. Lia até folhas de jornal nas quais, antigamente, vinham embrulhadas as verduras, antes dos sacos plásticos. Notícias do cotidiano e, sobretudo, da política, eram de seu estrito interesse e ainda que viessem meio atrasadas, embrulhando pés de alface, meu pai tinha sabedoria para distinguir que isso "não tinha muita importância. Os políticos e os partidos são quase sempre os mesmos." Mais de quarenta anos depois percebo que estava coberto de razão.
Uma de suas alegrias era trazer para casa a Revista Geográfica, com fotos grandes e coloridas, era assim que a família inteira ia para o Ártico, para a Terra do Fogo, quando não nos perdíamos nos confins da África, no meio das tribos. A edição histórica da revista Realidade sobre os yanomamis, com as fotos magníficas de Claudia Andujar, nos anos 1970, foi uma das publicações que mais li na infância e, de tão importante, acabou guardada no baú de livros esotéricos.
Meu pai ainda lia a Bíblia em voz alta, não como um desses fieis que se julgam profetas. Meu pai lia a Bíblia pela fé afinal, era um cristão mas também pela beleza literária, pelo significado das parábolas, devo a ele minhas primeiras aulas de hermenêutica. Meu pai não se contentava em nos ensinar a ler, fazia questão que aprendêssemos a interpretar os textos. Para nossa sorte tinha ainda um pensamento crítico que nos ajudou a ter opinião. A magia da leitura vinha também de seu gosto pelas coisas científicas, pelo viés da corrida espacial em plena Guerra Fria, ele torcia pelos russos e não me esqueço da sua alegria, misturada com apreensão quando os astronautas embarcavam nos foguetes. Muitas vezes rompia com suas tendências políticas e desejava boa sorte também aos americanos. Meu pai era um humanista.
Da minha mãe, guardo a lembrança da paciência com que ouvia todas essas histórias na convivência com um homem avançado para seu tempo, que dava mais valor às ideias do que ao dinheiro. Até por isso viveu modestamente, mas cheio de sonhos, e gostava de presentear minha mãe com eletrodomésticos sempre que podia. Mas antes de dar o presente criava um clima, uma história. Foi assim que num Dia das Mães a libertou da vassoura e dos escovões dando-lhe uma enceradeira Arno, lembro-me bem da marca. Em domingos como este ainda a vejo cantando enquanto passava a enceradeira pela casa. Minha mãe gostava de cantar e acho que o barulho da enceradeira foi também a sua orquestra. Era feliz assim, no baile do cotidiano. Imaginação nunca faltou àqueles dois.
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