Há muitas formas de se viver uma religião, nem sempre dogmáticas. Dá para ter liberdade de expressão e pensamento, embora a finalidade das religiões seja reunir as pessoas a partir dos mesmos atos ou sacramentos. Tive mãe católica e pai esotérico, um curioso que tendia mais à filosofia que à religião, a ele devo minhas incursões por crenças diversas e digo que tenho fé ecumênica porque me emociono com o cristianismo, com o budismo, o hinduísmo ou o culto aos orixás. Emocionei-me até as lágrimas em cada situação em que me deparei com manifestações sinceras de fé.
Passei do tempo de criticar religiões só pelo gosto de dar o contra. Mas também não pontifico por religiões que surgem como marcas de desodorante, com igrejas proliferando como bactérias. Resta-me respeitar a doença ou a saúde dos outros. Da minha parte, a religião, como o alcoolismo, depende de gradação, de dose. Há fanáticos e bêbados por toda parte, e pessoas que se contentam com a dose necessária para ter um farol no escuro que é a existência tão cheia de incertezas.
No Natal costumo visitar minhas raízes, não sou do tipo que comunga o ano inteiro, mas a comunhão na missa de Natal, este ano, me levou às lágrimas, justamente porque foi um presente que me dei, a fé em dose extra e não cotidiana. Além deste momento mágico, magnífico, também visitei minhas raízes pelo viés da arte. O catolicismo tem representações extraordinárias do sagrado. Em comparação ao catolicismo, talvez só no hinduísmo se encontre tantas imagens, representações dos deuses pela escultura e pintura. Como tive mãe católica, não entro em igreja sem sentir aquela familiaridade confortável que vem da infância, ao ver Maria, José e o Menino Jesus em altares e presépios.
Na Igreja de São José, em Campinas, onde fui à Missa do Galo – hoje celebrada mais cedo – senti no presépio o cheiro mágico dos pinheiros no ambiente. Era o cheiro do Natal, um retorno a paisagens que nem existem a não ser no momento em que a fé entra pelos cinco sentidos.
Além das imagens, do cheiro de pinheiro e incenso, encontrei depois na música o prazer inigualável da arte sacra. Os cânticos de Natal, as "missas" e "aleluias" me elevaram a paraísos perdidos. Sim, nesta hora há um Deus que, afinal, é um grande criador. Daí não me causa estranheza aproximar-me da religião pela arte e da "palavra" pela poesia que encontro em momentos de fé espontânea. Sem querer ter razão, sem querer impor meu sentido de religião porque isso causa mais distância que proximidade. "Religare" depende muito mais de nossa capacidade de sentir e se reunir para se elevar. Professo, portanto, neste início de ano, minha religião de forma muito simples, através dos cinco sentidos que me levam a outros dos quais não sei nem o nome. Eis o mistério da fé.

[email protected]

mockup