Muito já se falou sobre as imagens construídas. A importância que adquirem caras e bocas, corpos siliconados, tatuados, perfurados por piercings, vestidos à caráter. Toda construção tem por objetivo a criação de uma identidade que nos transforme em produtos aceitos por alguma ordem: seja uma empresa, uma igreja, um grupo social, a vizinhança.
Na contramão do que se fabrica para ser aceito, tivemos recentemente a passagem meteórica de Amy Winehouse pelo reino pop. Chegou como uma rainha mais ou menos adequada ao showbizz: tinha estilo, olhos delineados, roupas que lembravam as divas do jazz, o cabelão preso em coque retrô, além de um corpo esguio e tatuado, que lhe dava a configuração de um ser em trânsito entre os anos 50 e a mais decadente contemporaneidade.
Acontece que a diva pop não era uma menina boazinha, destas que vão impunes para o céu. Antes teria que protagonizar todas as estripulias, desconstruindo a imagem ao mesmo tempo em que dava uma banana e muitos dólares aos empresários. Comparada a um meteoro, a uma rocha que caiu desgovernada, ela tropeçou nos palcos por pura bebedeira, drogas, contravenção dos princípios e morreu no último dia 23 cumprindo o que há muito tempo já se determinava como seu destino: o fim precoce.
Ocorre que não consigo ver Amy apenas como uma desvairada, uma possuída pelos demônios do álcool e do tóxico. Restava nela, além de um talento inquestionável, uma dose de transgressão que beirava à poesia, aos desvarios de pessoas que temos por tendência detestar porque mostram um humano sem limites. No fundo, a sociedade opta por um cala boca geral, preferindo os cordeiros para o sacrifício. Aí, quando pinta uma loba, a torcida é feroz para que ela se desmantele de vez, para todo mundo celebrar as apostas de que ela iria se dar mal.
Amy estava longe de ser um poço de virtudes, um exemplo de vida, como me cobraram outro dia quando revelei numa rede social minha admiração por ela, apesar de tudo. Moralistas de plantão não se cansam de apontar o dedo, querendo corrigir o incorrigível, acreditando que todo mundo é obrigado a andar em linha reta, nunca se descontrolar, nunca cair, nunca falar alto para não ferir a imagem tão cara a uma sociedade que vive de aparências e só quer espelhos.
Para ser sincera, estou cansada deste exército de comportados, das pessoas que nunca dão gafes, que nunca destoam e por isso são consideradas sérias. Não quero de forma alguma corroborar com a destruição, com a doença, o alcoolismo, a bulimia ou qualquer outro sintoma de uma espécie que se perdeu. Mas vejo em alguns decadentes e, sobretudo nos talentosos, a resposta que fica atravessada nas gargantas quando nos controlam, na tentativa de nos sujeitar a regras que também não tornam ninguém mais feliz.
O contraponto à repressão talvez tenha vindo a galope na forma de um excesso de gozo e de vício. Todos hoje transitamos com alguma dose de loucura a tiracolo, seja na forma obsessiva de ganhar dinheiro para 'ser bem-sucedido', seja aos trancos e barrancos como fez Amy Winehouse ao desafiar as musas, as mulheres perfeitas, as artistas bem comportadas com seu corpo frágil, a falta de um dente, um sorriso triste.
Senti sua morte precoce porque ela abdicou de um imenso talento. Mas compreendo sua revolta, sua dor ao encarnar o lado bizarro da vida, como quem tira um sarro das construções de araque. Acima de tudo, ela tinha a coragem de se dar inteira e sem dissimulação à sua poesia, à sua música, falando o que ninguém queria ouvir, embora acabássemos encantados por sua estranha sedução desconstruída. No século da imagem, alguma coisa dentro de nós clama por este avesso.
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