CELIA MUSILLI - A dança da filosofia
PUBLICAÇÃO
sábado, 05 de março de 2016
Mais uma vez os corpos caíram como bombas dividindo as fronteiras do pensamento e da opinião, mas só caíram assim como bombas - porque estavam nus. Quando Agnaldo de Souza - professor de Artes Cênicas da UEL e formando de Filosofia resolveu encenar seu trabalho de conclusão de curso, ele sabia o que estava fazendo, talvez só não tivesse a dimensão de que o efeito da bomba não se daria pelas reflexões que elaborou ao longo de cinco anos. O impacto se daria porque desavisados projetaram sobre seu trabalho alguns séculos de repressão ao corpo, uma repressão que nem mesmo um tempo supostamente liberal consegue domar porque as feras permanecem no armário, como esqueletos da censura, parecidos com esses brinquedos de madeira e barbante que cada um manipula como quer, de acordo com seu repertório.
Conheço Agnaldo de Souza há algum tempo, é um excelente profissional de dança que decidiu estudar também filosofia. Há alguns anos, numa dessas temporadas de festival de teatro, tivemos uma conversa na qual notei seu interesse profundo pelo curso que tinha iniciado: Filosofia para ampliar seu pensamento, dançando também sobre as relações de poder. Na semana que passou, levei um susto quando vi nas redes sociais que a performance apresentada por ele no campus da UEL com a colaboração de alunos de Artes Cênicas por um lado tinha provocado a admiração dos que foram além do olhar sobre as genitálias, buscando as ideias. Por outro, provocou uma revoada de críticos que deixaram nos posts sobre seu trabalho incluindo os da minha página comentários limitados que às vezes não passavam de uma frase: "Cambada de vagabundos." Mais uma vez, percebi que a nudez tinha instigado o pensamento autoritário - ainda que a arte esteja despida há séculos. Percebi também que a performance tinha cumprido sua função: provocar a reflexão.
O que Agnaldo fez foi deslocar o senso comum da nudez associada culturalmente ao erotismo para um campo inusitado: a esfera política dos regimes e sistemas totalitários, enfocando a "humilhação do corpo nu" em campos de concentração, prisões e hospícios. Assim criou uma ação artística que reuniu arte e filosofia, fez isso a partir do pensamento de Hannah Arendt que estudou o pensamento do século 20 pela ótica do nazismo e do comunismo. Isso ficou mais claro quando solicitei seu trabalho escrito, queria conhecer a teoria depois de perceber que a maior parte da imprensa se calou sobre o episódio, ainda que isso tenha se tornado uma grande polêmica em Londrina. A única notícia que encontrei num site trazia algumas explicações sem muitos esclarecimentos. Ainda assim, isso foi melhor do que ver ecoar nas redes a frase "cambada de vagabundos", além de notas que me pareceram uma mediação jeca-cultural do episódio, com pessoas mal informadas questionando "por que ele teria usado cenas de um jogo de futebol se estava tratando de holocausto". Entrevistando o professor, que é também aluno, descobri que a cena que serviu à zombaria dos desavisados é uma referência aos jogos que condenados pelo nazismo e presos comuns no Brasil praticam nas pausas de sua humilhante realidade, momentos em que o corpo, tocado por memórias, recobra as sensações sequestradas pela violência, assim era nos campos de concentração e continua sendo nos presídios.
Reunindo arte e filosofia no trabalho intitulado "Compreender e Imaginar: texto e cena mediados por um processo estético-político", Agnaldo não mexeu apenas nas estruturas do pensamento arcaico, mexeu também com ranços do presente. Fez mais, trocou o sentido vetusto de aprender e ensinar em salas de aula pela experimentação ao ar livre no campus. Correu riscos e nos deixou uma lição. Só não compreendo ainda por que as pessoas que se gabam de conhecer o Louvre, escandalizam-se ao ver o nu fora dos cânones. Fosse assim, Botticelli nunca teria pintado, Pasolini nem teria nascido. Mas acima de tudo não compreendo como numa cidade universitária parte das atenções se concentra em peitos e traseiros em vez de se concentrar nos cérebros, nas ideias e na cultura. Estamos perdendo a melhor parte da história: a respiração artística da liberdade. Para não sufocar, que venham mais performances. A reflexão também nasce daquilo que provoca.



