CÉLIA MUSILLI - A crônica e a mosca
PUBLICAÇÃO
sábado, 16 de março de 2013
Crônica, este gênero que lembra o deus Cronos, aparece periodicamente nos jornais. Venho aqui todos os domingos trazendo a crônica. Às vezes, um fato instiga minha imaginação durante a semana e não tenho dúvidas em escrever sobre aquilo que me rodeia como um pássaro. Geralmente, ele pousa num punhado de letras, onde extravaso, comento, enceno, narro, me alegro ou sofro. O sofrimento me lembra a dor crônica, mas este é outro departamento e, na maioria das vezes, o melhor é manter a lucidez com filetes de sensibilidade, mas sem turvar sentidos.
Mas afinal, onde nasce a crônica, onde brota o gênero a nos impulsionar periodicamente, semana após semana, a juntar as letras?
Quase sempre o texto salta do cotidiano, como um passageiro que sai do táxi. É ali, no dia a dia, que as ideias aparecem num arranjo que tem muito de acaso, facilitado pelo olhar do cronista que como um jogador não pode perder os lances, sob o risco de "comer barriga."
Já percebi que adquire-se com o tempo um olhar de cronista, nada tão especial, apenas uma atenção redobrada quando nos deparamos com cenas, fatos, chamados diversos e até placas de rua. Já me deixei invadir pela crônica olhando nomes de igrejas que se multiplicam quase à velocidade da luz. Deparei-me com a Igreja da Bola de Neve, Lareira de Deus e outros nomes tão inusitados que nem o Senhor os conceberia.
Já me vi frente a frente com a crônica, ou sua motivação, ao observar casais se despedindo em rodoviárias em beijos de parar o trânsito, que me levaram a Hollywood. Ou em acasos como naquela vez que uma folha-bailarina caiu de uma árvore e, rodopiando, veio parar no meu decote, um broche inesperado.
Lendo os cronistas, vejo que muitos encontram no acaso seu punhado de frases da semana. Milton Hatoum, no Estadão, outro dia sacou da ideia de uma mosca andando em seu braço a razão da sua crônica e escreveu: "um inseto para mudar toda história, o movimento da mão é interrompido pelo intruso que voa em círculos e zoa com insistência."
Posso estar enganada, mas neste dia o inseto, além de mudar o curso da história, a fez nascer. A insistência de Hatoum em seguir a mosca foi um modo de seguir a crônica, ainda que ele imaginasse que a picada do pequeno monstro pudesse significar a paralisação da sua atividade de escritor. Mas foi o mosquito que o levou à infância, a lembranças quase esquecidas, como um controle remoto que, de repente, dirige seu pensamento a coisas inesperadas. Através do voo da mosca e seu zumbido ele chegou ao abraço da mãe e à data de sua morte. A mosca foi assim um meio de transporte do seu pensamento.
Lembro-me também como uma vez o olho do meu gato e sua orelha translúcida me fez pensar nas maravilhas do mundo de Alice, como se a visão rompesse as portas da percepção da vida. Por isso escrevi: "Estes acontecimentos são minha vida de Alice, representam a realidade paralela que enxergamos quando abrimos os olhos para coisas que acontecem e só percebemos quando viramos as páginas de nosso livro interno, onde as histórias do lado de dentro são costuradas com as histórias do lado de fora".
Mas nem tudo é fácil, poético ou simples. Os cronistas vivem num garimpo que exige ferramentas pesadas quando o dia não inspira muita coisa, mas o deus Cronos vem cobrar a periodicidade do texto de forma implacável. Hoje cheguei a ver a ferramenta aqui. Era dia preguiçoso e sem sobressaltos, sem cenas, sem acasos. Até que a mosca de Hatoum saltou do jornal e me deu o estalo. Tão forte quanto a picada de um inseto que me fez estapear o próprio braço a ponto de irromper ideias. Bendito seja Hatoum e sua mosca "bêbada e hostil". Ainda bem que nem ele nem eu a matamos sem piedade. Apiedar-se da mosca significa, muitas vezes, dar uma chance à crônica. Fica a lição neste verão que termina tão quente quanto inusitado.



