Os artistas sempre me comovem. Não só pelo que fazem nos palcos, mas fora deles. Esta semana, entrevistei para um livro a sair no fim do ano, a coreógrafa e bailarina Maura Baiocchi, diretora da Companhia Taanteatro (São Paulo), nascida no Paraná e reconhecida no cenário internacional da dança. O grupo tem uma história de quase 25 anos, a serem completados em 2016. Mas o assunto da entrevista não era a comemoração da data, mas a trajetória da companhia naquilo que ela tem de mais precioso: seu processo de trabalho.
A gente sabe o quanto são disciplinados os atores e bailarinos em seus ensaios constantes, dando o melhor de si para criar suas performances e espetáculos. Mas os ensaios e os exercícios vão além do espaço de realização no palco, vazam para a vida das pessoas, transbordam para sua compreensão e leitura do mundo. Fiquei pensando que, quando estamos no teatro, supomos estar diante do ator X ou Y. Mas na verdade, estamos diante de múltiplas pessoas fundidas no intérprete que leva para sua arte não apenas sua bagagem, sua história pessoal e familiar, o conhecimento adquirido em anos de estudo, pesquisa e disciplina, mas também leva a bagagem da cultura a que pertencem ou da cultura que "visitam" para compor um espetáculo. A presença do intérprete inunda o espaço, com uma potência que mexe com o público, por talento, carisma, pela realização da obra de arte em seu corpo, em seus movimentos, e pela arqueologia que levanta, trazendo à cena uma história de vida ou história de mundos.
Maura Baiocchi tem um senso oportuno de mesclar psicologia à dança, cultura a coreografias, criou um processo para formação de bailarinos que é o Taanteatro – Teatro Coreográfico de Tensões, que utiliza como uma de suas ferramentas a Mitologia Transpessoal, que é apenas uma fração importante de um método amplo que converte em criação o que está dentro do bailarino desde o seu nascimento, mas leva em conta tudo o que perpassa a cultura, seus mitos, arquétipos, suas amarras, suas bandeiras, seus desejos e limitações. Todo contexto do imaginário também está presente, na forma de sonhos e conteúdos do inconsciente num levantamento de muitas camadas que vão, enfim, resultar numa obra de arte.
Foi assim que ela criou espetáculos importantes para o repertório da companhia, como "Devir Ofélia" (1988) ou "Frida Kahlo: uma mulher de pedra à luz da noite" (1991), passando ainda por outras personagens femininas como Florbela Espanca, tema de alguns espetáculos, que traz mulheres fortes fundidas em Maura em narrativas coreográficas e incorporações culturais de grande valor simbólico.
Gosto dos artistas que se movem por símbolos e pela ótica da transformação. São capazes de trespassar a realidade sob a perspectiva de um sonho que anuncia outra construção de mundo, pondo em xeque inclusive a beleza e a perfeição, herdadas da arte clássica mas superadas em novas estéticas que apontam para o ser humano integral: bonito ou feio, perfeito ou monstruoso, fazendo da arte um território de atrito que está longe da "adequação". A arte, para mim, tem sim um componente transgressor que faz parte da sua essência que aponta para múltiplas possibilidades. Assim vejo o teatro e a dança modernas, como expressões que nos tiram das áreas de conforto rumo a uma visão que não se apresenta inteira, mas fragmentada no plano de diversidades que formam nossa existência e nossa relação com os outros. O espectador também concorre imensamente para a completude da obra quando soma o que vê a seus afetos, desafios, conquistas, derrotas. As ideias de Maura Baiocchi apontam para esta tessitura de fios diversos que se conectam para levar em conta, sobretudo, as tensões, mais que as harmonias. Disso resulta uma faísca que às vezes incomoda, queima, antes de iluminar. Mas quando atravessamos o corredor estreito de nossos valores e de nosso comodismo, levamos da arte um tapa sincero que nos acorda para outras realidades que não convergem para os caminhos já conhecidos, mas para a compreensão das "zonas de risco" superando de forma ritualística os embates, receios e contradições, isso ocorre muitas vezes de forma poética e nisso consiste sua melhor parte. Neste momento, muitas vezes, a compreensão das coisas por um viés simbólico nos salva das amarras da nossa própria cultura e existência, indo além da arte.

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