CELIA MUSILLI - A beleza de quem sente
Na quinta-feira, ainda sem um tema para a coluna, deparo-me com a notícia de que posso reencontrar Lupicínio Rodrigues neste domingo. É que um jornalão traz hoje às bancas um livro-CD sobre a obra do compositor gaúcho.
Fico me lembrando das suas letras. Para não perder nenhum verso pesquiso cada uma e penso que, às vezes, as canções antigas, vistas só como poemas, soam meio piegas, porque ninguém diria, sem se constranger hoje em dia, coisas assim: ''O remorso talvez seja a causa/ Do seu desespero/ Ela deve estar bem consciente/ Do que praticou/ Me fazer passar tanta vergonha/ Com um companheiro/ E a vergonha/ É a herança maior que meu pai me deixou.'' (Vingança, Lupicínio Rodrigues)
Então, no meio desta dor-de-cotovelo, entra a música, um samba-canção magnífico que considero uma das pérolas mais reluzentes da MBP. Entram uns violões, uns ritmos que dão vontade da gente sair dançando, requebrando da forma mais malemolente, e chego à conclusão de que os sambas de Lupicinio são o sétimo céu, o Nirvana tocado em pandeiro. Não resisto e vou atrás de ''Nervos de Aço'', que é o que meu ''inferno astral'' anda exigindo (faço aniversário em 8 de maio) e minha manhã se transforma num samba da mais alta qualidade.
Relembro que Lupícinio fez ''Nervos de Aço'' quando encontrou ''a noiva de braço com um cidadão'', como disse num programa gravado na TV Tupi e que hoje a gente encontra em vídeo no Youtube. É lá que ele conta, ainda com os sintomas da velha dor, que viu a noiva com outro rapaz, e tudo isso aconteceu num tempo em que os amores andavam ''de braço'', condição que ele explica com indisfarçável sotaque gaúcho, meio cantado, como se toda a vida fosse uma canção. E não será?
Pois é, senhores, hoje os amores nem andam de braço. Andam por aí em beijos relâmpagos, em romances de curtíssima duração, e parece que ninguém sofre como noivo traído nem compõe com a passionalidade de quem escreveu: ''Há pessoas de nervos de aço/ Sem sangue nas veias e sem coração/ Mas não sei se passando o que eu passo/ Talvez não lhes venha qualquer reação/ Eu não sei se o que trago no peito/ É ciúme, é despeito, amizade ou horror/ Eu só sei é que quando a vejo/ Me dá um desejo de morte ou de dor''.
Ainda assim, acho que ''nervos de aço'' é o que cada amor exige, até que passe como as caravanas e relaxe em cordas que, no fim das contas, um dia acabam em samba mesmo. Talvez em tempos de amores menos passionais, em que todos tomamos analgésicos para não sentir dor, os ''nervos de aço'' tenham sido substituídos por ''nervos de silicone.'' O que não é de todo ruim. Afinal, silicone é muito mais flexível, mas acho que não dá um samba como o de Lupicínio. E aí, a dor perde sua melhor parte: a da beleza de quem sente.
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