Quem sofre de dor de cabeça sabe o que significa esta visita ingrata que faz você querer viver de olhos fechados. Se João Cabral de Melo Neto vivesse hoje, não faria um poema à aspirina, mas à Neosaldina, este remédio que se tornou sinônimo de liberdade aos que padecem de dor, esta que nos perturba as ideias.
Às vezes imagino um rosto para a dita cuja e a vejo como um bicho de sete cabeças, cabelos verdes, fios retorcidos como os da Medusa, um monstro, enfim, que chega de fininho, anunciando que vai te pegar, mesmo quando você fez tudo o que sabe para não sofrer dor. Perdi as contas dos tratamentos e dietas, das radiografias e tomografias, dos médicos, especialistas e curandeiros que prometeram me livrar da fera. Eles bem que tentaram e todos me perguntam de que lado dói. Mas como assim? A dor é variável, não tem endereço, nem CPF, não prefere norte ou sul, se espalha como uma forasteira que chega sem aviso e não tem prazo para ir embora. Visita ingrata, passageira que se senta ao lado sem pedir licença.
Agora mesmo, às 9 da manhã, não estou livre dela. A dor de cabeça me persegue como um ladrão, um assaltante que rouba meus dias, me faz dormir mais cedo, recusar bebida alcoólica, pizza com muito queijo, porção de botequim, batata frita, me obriga a trocar o gosto dos sábados por feijoadas incompletas. Admiro quem bebe todo dia e é só alegria, não tem ressaca e nenhum analgésico na bolsa.
Ter uma inimiga invisível não é mole não. Ainda se ela desse as caras, mostrasse do que é feita, eu a enfrentaria de igual para igual. Mas não, instalou-se sorrateira como bicho que espreita para dar o bote. Uma serpente, um ouriço que desafia especialistas que já me receitaram de tudo, remédios alopáticos e homeopáticos, relaxamentos, yoga, terapia e benzimento. Mas não há neste mundo quem possa com a dor de cabeça, a não ser em casos em que o (im)paciente vira quase um santo, estou chegando lá.
Levo uma vida alternativa e sensata, sem exageros, o que vem ao encontro de meus hábitos mais diurnos do que noturnos, mas me mantém numa disritmia com meus amigos boêmios. Pois é, tem gente que me olha e comenta: ''Deve comer alpiste, dormir às 10, acordar com o sol, preferir o ar livre'', quem fala não está errado não. Mas confesso que minha vida ''saudável'' é quase compulsória, junta-se o útil ao agradável e mesmo assim a maldita não me abandona. Por incrível que pareça, ter dor de cabeça é um hábito como beber cachaça.
Ah! João Cabral, você sabia o que estava dizendo quando escreveu ''Um Monumento à Aspirina'': ''Claramente, o mais prático dos sóis/ o sol de um comprimido de aspririna''.
Fosse hoje, a ode seria à Neosaldina e ainda assim não nos livraríamos da dor, poeta. Esta dor que nos impede de olhar o sol, mas não consegue nos roubar as ideias que se embolam com as letras, nosso verdadeiro analgésico.

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