O poeta Manoel de Barros ensina que a poesia é a arte de virar palavras do avesso. Reinventando o sentido das coisas, ele leva o leitor ao estranhamento e, assim, lemos de novo e de novo, para compreender tudinho o que se revela nas frases, porque linguagem é desdobramento.

Capítulos de seus livros podem se chamar ''Arte de infantilizar formigas.'' E, para dar caminhos ao leitor, escreve ludicamente: ''Meu irmão veio correndo mostrar um brinquedo que inventara com palavras. Era assim: 'Besouros não trepam no abstrato.'

Ou ainda: 'Prefiro as máquinas que servem para não funcionar: quando cheias de areia e musgo - elas podem um dia milagrar de flores.'

Tudo isso está no Livro Sobre Nada, escrito a lápis no seu ''escritório de ser inútil'', onde o poeta se recolhe todas as manhãs para criar suas dádivas.

Tenho pra mim que Manoel de Barros preservou sua mente para o encantamento. É ali, neste laboratório demasiadamente humano, que deixa florescer seu deslumbramento pela vida, fora do alcance da lógica ou do raciocínio da gente grande, por isso mesmo é poeta imenso.

Os poetas têm que dar as costas ao senso comum, escutar uma voz interna que cochicha coisas ininteligíveis, ou mesmo impensáveis, à primeira vista. Quem não tiver ousadia não pode ser poeta. Quem não tiver espontaneidade para escrever o absurdo, não pode se lançar ao ofício de ler a originalidade das coisas.

Penso que Deus é poeta. Se fosse um senhor muito sério, jamais teria criado o arco-íris. Se tivesse juízo, não teria pensado uma estrela cadente. Gente séria não se arrisca e também não cria.

Acho que os poetas, neste sentido, se equiparam às crianças, de quem o tempo rouba a criação surpreendente, o entendimento particular que têm até se transformarem em adultos, que desaprendem a originalidade para saber o bê-à-bá.

Quando era criança e a professora me dizia ''Ivo viu a uva'', achava divertido, mas emendava logo: ''Que apodreceu na chuva.'' Então me diziam que apodrecer era palavra feia. Eu não achava e, mentalmente, boicotava a censura, imaginando as uvas podres se transformando em vinho e achava tudo uma beleza. Gente grande não sabe, como Manoel de Barros, ''milagrar'' as coisas.

Nesta linha, crianças são sempre surpreendentes e nos fazem engolir a língua, para processá-la de modo diferente.

Um sobrinho de nove anos, que começa a se interessar por garotas, veio me contar: ''Sabe tia, namoro é uma amizade complexa.'' O que o pirralho me disse teve o sentido de uma revelação.

Há alguns anos, quando meus filhos Fernão e Gustavo tinham quatro anos, inventei uma brincadeira na hora de dormir, inspirada por tudo o que aprendera a respeito do zen, e propus muito sabida: ''Vamos acalmar a mente.'' Gustavo perguntou: ''Como a gente acalma a mente?'' Expliquei: ''Deixando a cabeça vazia, sem nenhum pensamento.'' Ele retrucou: ''Tudo preto ou tudo branco?'' Compreendi, assim, que meu filho tinha nascido zen.

Por falar em zen, recorro de novo ao Livro do Nada e ao ''idioleto manoelês archaico'', assim definido pelo autor do indefinível: ''Idioleto é o dialeto que os idiotas usam para falar com as paredes e com as moscas.'' E me deslumbro com as palavras, pedindo a benção ao mestre Manoel de Barros que me encanta por libertar sentidos: ''O que não sei fazer desmancho em frases.''

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