Célia Musilli - A Afrodite de Louys
PUBLICAÇÃO
sábado, 19 de abril de 2014
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Há poucas semanas o livro Manual de Boas Maneiras Para Meninas (Azougue , 2006), de Pierre Louys, foi alvo de uma campanha nas redes sociais porque um de seus fragmentos foi visto como uma exortação ao estupro. Na verdade, o autor faz uma sátira ao moralismo, invertendo as relações de poder no plano erótico, colocando as meninas como provocadoras dos bons costumes. Fui atrás de Louys nos sebos e encontrei outro livro: "Afrodite", no qual a sátira fica mais evidente a partir da introdução que desenvolve a ideia do que seriam a Virtude e a Volúpia. O texto mostra Hércules incitado a escolher entre as duas coisas e respondendo placidamente que tratava-se de uma escolha impossível porque a Virtude e a Volúpia são interligadas ou as duas faces de uma mesma moeda.
Louys parte assim para uma aventura erótica acima do Bem e do Mal dentro do mesmo princípio que levou outros autores, como Sade, a discutirem as "verdades morais" mostrando-as pelo avesso. No livro de Louys gosto do recorte que ele faz dos costumes mostrando que nas cidades mais libertinas como Babilônia, Alexandria, Atenas, Veneza e Paris a arte floresceu, ao passo que a rígida Esparta não deixou um único poeta, pintor ou filósofo importante. Isso vai ao encontro da minha ideia anterior quando da polêmica sobre o livro de Loyus quando defendi a literatura e a arte como veículos da imaginação, através das quais fazemos nossas escolhas simbólicas e sem censura, o que é sempre melhor do que a repressão que difunde virtudes artificias matando a fantasia.
"Afrodite" é um folhetim escrito em linguagem excessivamente colorida e adjetivada onde encontro trechos que exaltam a mulher e sua capacidade de sedução não de forma grosseira, mas poética. O texto traz a beleza de um mundo antigo e amoral no qual era "permitido gozar a Terra" - em oposição à contemporaneidade cheia de religiosidade, guerras de sexo e virtudes sombrias. Às vezes gosto de ler textos de linguagem arcaica, de conteúdo frívolo e erótico. É como fazer bolhas de sabão num mundo cheio de ocupações nem um pouco lúdicas. Seguem fragmentos do livro de Louys que resgata costumes da Alexandria. Há trechos que lembram o Cântico dos Cânticos e trechos entre a cortesã Crísis e o escultor Demétrio de Sais:
" Teus olhos são como lírios dágua azuis sem haste, imóveis nos lagos.
- Meus olhos estão à sombra de meus cílios como lagos profundos sob ramagens negras.
- Teus seios são dois broquéis de prata, cujas pontas mergulharam no sangue.
- Meus seios são a Lua e o reflexo da Lua na água."
...
"Se só queres ternura, te mimarei como se acaricia uma criança. Se procuras voluptuosidades requintadas, não te recusarei as mais dolorosas. Se buscas silêncio, me calarei. Quando desejares que eu cante (...) conheço canções de todos os países."
...
"A alma feminina tem uma simplicidade que os homens não podem crer. Onde há apenas linha reta, procuram obstinadamente a complexidade de uma trama: encontram o vácuo e nele se perdem. Foi assim que a alma de Crísis , clara como a das crianças, pareceu a Demétrio mais misteriosa que um problema de metafísica." (Pierre Loyus in "Afrodite" (trad.Elias Davidovich/ Ediouro, 1991)


