Eu tinha oito ou nove anos quando comecei a fazer da escrita um hábito, dedicando-me diariamente a uma brincadeira que me arrebatava por ser nova e desconhecida. Algo assim como descobrir a América sem sair do lugar. A escrita era um outro país, uma outra paisagem onde eu depositava meus sonhos e também meu inconformismo, um território livre onde expressava o que sentia. E, aos nove anos, o que se sente não é pouco.
Às vezes escrevia quase no escuro. Aproveitando a luz que vazava da varanda para o meu quarto ou então me levantava, sem fazer barulho, para escrever na sala. Lá em casa, criança era proibida de ter insônia, ainda mais quando tinha insônia para escrever. Se meu pai me flagrava acordada nas madrugadas, me mandava de volta pra cama e dizia que ''aquilo não era hora de criança ficar escrevendo''. Ele não sabia - ou talvez soubesse e estivesse querendo me proteger - que eu tinha sido tomada pela febre dos poetas que lia.
Se escrevo, devo isto aos poetas e à minha irmã, sete anos mais velha. Ela sempre gostou de literatura e tinha uns cadernos com uma seleção de textos. As moças tinham este hábito naquela época, manter cadernos de poesias que passavam de mão e mão, como uma biblioteca itinerante. Ela e as amigas davam preferência às mulheres e liam poemas de Cecília Meireles, Helena Kolody e Gabriela Mistral. Mas também liam Augusto dos Anjos, Drummond e, claro, Vinícius de Moraes, um dos caras que popularizaram a poesia neste País, tirando-a dos livros para os shows. Eu não participava dos saraus improvisados que minha irmã fazia com as amigas. Era apenas uma espectadora dos shows que elas armavam lá em casa, lendo umas para as outras, meio encantadas, os versos que corriam como um rio no qual eu navegava, sem deixar pistas, para outro mundo.
Uma vez, fui passar um feriado numa fazenda e nem me lembrava que uma das minhas redações escolares tinha sido inscrita num concurso. Quando voltei, estava todo mundo feliz lá em casa. Eu tinha ganhado o concurso e meu primeiro texto foi publicado no jornal A Voz do Povo, o único de Cornélio Procópio. Para quem não sabe, a cidade em que nasci fica no Norte do Paraná, onde a terra-roxa me dava uma energia extra e um cenário de filme de aventura quando chovia, me fazendo afundar os pés no barro dos quintais.
Um crítico curitibano - crítico de redações escolares, é bom que se diga -, escreveu no jornal que eu podia ser considerada um ''talento precoce''. Aquilo era muita areia ou muito barro para o meu caminhãzinho, ele terminava elogiando meu texto cheio de metáforas. Então, passei a abusar das metáforas nas redações, escrevendo belezuras como: ''Seus olhos são dois oceanos'' ou ''O prefeito é uma raposa astuta''. Claro que não agradei.
Não demorou muito para eu definir que seria jornalista. Além de gostar de escrever, a ilusão de que faria grandes reportagens me fazia sonhar com outros lugares, mais exóticos que os quintais de barro grudento. A revista Realidade enviava repórteres até para a Amazônia e meu pai colecionava a National Geographic que me fazia decolar para a Tasmânia e a Austrália quando virava as páginas. Demoraria alguns anos para descobrir que a época das grandes reportagens estava sendo substituída por um jornalismo de gabinete. As viagens foram escasseando e os jornalistas se tornando reféns desbotados das redações. Até as grandes entrevistas passariam a ser feitas por telefone, depois substituídos por e-mails que hoje, no máximo, permitem viagens para quem toca o mouse. Mas ainda sonho com a Tasmânia.
Esta semana recebi um comentário da leitora Carol Borges no meu blog. Ela diz: ''Adoro ler seus textos na Folha. Eu tenho 17 anos e amo literatura, amo ler... e desde quando minha mãe me mostrou um de seus textos, eu não parei mais de lê-los. Quero ser igual a você quando crescer... (risos)''
Dá para perceber que a Carol não gosta só de ler, gosta também de escrever, deve haver uma jornalista ou uma escritora dentro dela. Seu comentário me fez viajar no tempo, quando pegava carona nos poemas lidos pela minha irmã para descobrir a América, uma América cheia de letrinhas. Posso não ter ido longe. Só viajei até à Amazônia por minha conta e risco, nunca fui à Austrália nem à Tasmânia. Só não tenho dúvidas de que a escrita me levou às trilhas de um outro mundo. Acho que a Carol, quando fala dos textos, também está fazendo as malas. Então, boa viagem, Carol! Porque o sonho é a primeira passagem de quem escreve.
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