Celia Mmusilli - Iluminações de Clarice
Ela era um mito que reunia talento e beleza, tocando as pessoas com uma espécie de mistério. Mas definia-se como ''uma dona-de-casa que escreve.'' A humildade transbordava da mesma forma que a profundidade nas palavras de Clarice Lispector, para mim a maior escritora do País.
Li parte da sua biografia num volume dos ''Cadernos de Literatura Brasileira'', publicação do Instituto Moreira Salles. O livro destaca sua atividade de jornalista, ofício que ela desenvolveu de modo intermitente, completando o orçamento doméstico quando já havia se separado do diplomata Maury G. Valente, com quem teve dois filhos.
De volta ao Rio, depois de morar nos Estados Unidos, foi cronista do ''Diário da Noite'' a convite do diretor de redação Alberto Dines, no início dos anos 60. Ele atendia a um pedido de Otto Lara Resende que avisou num telefonema, em tom de cumplicidade, que Clarice estava precisando de trabalho. A história se repetiria anos mais tarde, em 1967, quando Dines dirigia o Jornal do Brasil e recebeu de Otto um recado com o mesmo texto: ''Dines, Clarice está com dificuldades.''
Difícil mesmo é calcular tudo o que passou a escritora - que já havia publicado ''Perto do Coração Selvagem'', ''Laços de Família'',''A Maçã no Escuro'' e ''O Lustre'' - dependendo das crônicas e entrevistas para sobreviver. Depoimento doloroso sobre o assunto é feito pelo escritor alagoano Lêdo Ivo que mantinha com ela a amizade e um elo em comum: o fato de Clarice ter passado parte da infância em Maceió, onde os pais da escritora desembarcam nos anos 20, vindos da Ucrânia.
Conta Lêdo Ivo que, na revista Manchete, ele presenciou uma cena deplorável protagonizada pelo diretor Justino Martins que, para estimular Clarice Lispector a ser mais produtiva e competente, a aconselhou a ''atualizar sua agenda sexual.'' Ela havia sido vítima de um acidente doméstico, tendo adormecido com um cigarro aceso, o que lhe causou queimaduras gravíssimas. E diante da sugestão indecorosa respondeu com a humildade que lhe era peculiar diante das misérias da vida: ''Não posso transar com ninguém, Justino. Tenho o corpo todo queimado.''
A autora de ''Perto do Coração Selvagem'' tinha um modo sensível de enxergar o mundo e não é difícil imaginar o que lhe custou transitar por algumas situações, mantendo-se fiel às suas emoções. Num dos trechos do livro, seus depoimentos ganham espaço e neles encontramos talvez as justificativas para ter deixado obra tão densa, poética e delicada, negando sempre a influência intelectual que lhe impunham e reforçando a imagem de uma ''dona-de-casa que escreve''. Esta imagem, fixou-se na lembrança de seu filho Paulo Gurgel Valente que relembra no livro o fato de que na infância sempre acordava com o barulho da máquina de escrever da mãe. Clarice produzia seus livros num canto do sofá, com a máquina no colo. Algumas páginas, copiou dez, onze vezes, só para ''entender o que queria''. Não à toa, não teceu apenas palavras. Teceu a substância imaterial da sua pungente sensibilidade. Seres assim não fazem parte deste mundo. Flutuam por aqui deixando registros e impressões que não se apagam. Elas não têm preço porque são insigths da porção delicada da humanidade. No caso, acho que são os escuros e iluminações de Clarice.
Confiram o que a autora dizia de si mesma e da sua obra:
''As pessoas que escreveram sobre meu trabalho dizem que eu tive influência de Proust e Joyce, o que tem como obstáculo material apenas o fato de eu não ter lido Proust nem Joyce antes de escrever o primeiro livro.''
''O Diário de Pernambuco tinha uma seção às quintas-feiras dedicada às crianças. Ali eram publicadas as melhores histórias enviadas pelas leitoras mirins, com sorteio de vários prêmios. Nunca ganhei nada. Depois de muito pensar encontrei o porquê: todas as histórias vencedoras relatavam fatos verdadeiros. As minhas somente continham sensações e emoções vividas por personagens fictícios.''
''Na adolescência, eu não tinha a menor orientação literária. Pagava uma quantia por mês para uma biblioteca e escolhia os livros pelos títulos. Foi assim que encontrei 'O Lobo da Estepe', foi assim que encontrei 'Crime e Castigo'. Lendo Dostoiévski tive febre, de tanta emoção.''
''Eu não entendo o que os especialistas falam. Mas deploro este falso vanguardismo, cheio de modismo, frio e calculista, pouco humano. A melhor crítica é aquela que entra em contato com a obra do autor quase telepaticamente.''
[email protected]
www.sensivelldesafio.zip.net





