CELIA CASTRO SOLTA A VOZ
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quinta-feira, 18 de janeiro de 2001
Francelino França De Londrina 
Sobe hoje ao palco, às 21 horas, no Bar Valentino, a cantora Celia Castro, que faz sua estréia profissional em um show basicamente romântico. Aos 51 anos, ela dá uma rasteira no destino e um passo decisivo em sua vida. Afinal, começar a cantar na noite numa idade em que a maioria das mulheres é referência apenas como avó e mãe requer ousadia. O repertório afetivo privilegia grandes pérolas da Música Popular Brasileira.
Na história da MPB existem alguns expoentes iniciando carreira na maturidade. Clementina de Jesus, o caso mais clássico, passou pelo funil das oportunidades nos palcos cariocas quando contava com 64 anos, em 1965, no espetáculo Rosa de Ouro, levado no Teatro Jovem. Doméstica de profissão, a patroa de Clementina ficou aborrecida com o sucesso da empregada e não queria dispensá-la para a apresentação no teatro.
A empregada-cantora sugeriu que a filha a substituisse na pilotagem do fogão. A patroa, se corroendo de ciúmes, preferiu que ela fosse embora de vez, prestando um grande serviço à Música Popular Brasileira. Clementina de Jesus, nervosa como uma garota, mamou uma garrafa de vermute para enfrentar a platéia na gloriosa noite de estréia.
Celia não trilhou por caminhos tão espinhosos, mas seu canto permaneceu em silêncio durante décadas, cochilando, esperando o momento certo de acordar. A vida superexigente, os três filhos para educar solicitando atenção em tempo integral. Ela se dedicou ao magistério, lecionando para o 2º Grau, em Rancharia (SP). Não iria largar o certo pelo duvidoso, afirma. Apenas por alguns momentos Celia Castro pôde sentir o calor de uma platéia da noite, mas era uma espécie de felicidade clandestina. O dia-a-dia era dividido entre os filhos, as tarefas do lar e o universo concreto, racional e cartesiano da Matemática e Física, disciplinas ministradas pela então professora.
Esporadicamente, cantava em festas familiares e casamentos. Na escola, alguns alunos conhecendo a fama da professora-cantora clamavam por uma música depois da aula. Celia não se fazia de rogada e soltava a voz. A Noite do Meu Bem, eterna canção de Dolores Duran, chegava depois do Teorema de Pitágoras. Dois acontecimentos merecem destaque nos momentos fugazes da cantora Celia no interior de São Paulo.
Em maio de 1968, Wanderléa, as belas pernas do iê-iê-iê, se apresentou em Assis (SP), no Cine Santa Maria. Celia ensaiou com os músicos, colocando a voz nos sucessos que a Ternurinha iria cantar, porque não haveria tempo da cantora famosa ensaiar com os músicos. Wanderlea atrasou uma hora e meia para começar o show. O público impaciente não perdoou. Após começar as primeiras músicas, a assistência gritava o nome de Celia, dando o maior gelo em Wanderléa, que acabou chamando a prata da casa, cedendo o microfone. Eu cantei e ela dançou, relembra. Por muito tempo fora chamada por Wanderléa de Rancharia. Há quatro anos, o festeiro delegado de ensino de Rancharia intimou Celia a cantar o Hino Nacional ao estilo Fafá de Belém, num ginásio de esportes. Ela aceitou o desafio e de forma retumbante 4 mil pessoas aplaudiram a interpretação emocionada da cantora.
Depois de se aposentar como professora, mudou-se para Londrina, há dois anos. E foi cantando boleros num baile para a 3ª Idade do Sesc/Fernando de Noronha que foi ouvida pela primeira vez na cidade. O diretor da Cia. Teatral Fase Três, João Henrique Bernardi, tomou conhecimento do potencial da ex-professora e a convidou para ingressar no grupo de teatro. Meses depois estrearam a performance Vingança, um espetáculo de música e poesia idealizado para ser apresentado em bares. O grupo de teatro me dá segurança, afirma.
Com a apresentação de Vingança no Bar Valentino, o proprietário Valdomiro Chammé fez o convite e agendou uma apresentação solo. As coisas acontecem no tempo certo, prossegue. Nos últimos dias, vive um misto de lucidez e instinto, preparando repertório, elegendo canções cuja morada é a memória afetiva. Com o violonista Nelson da Silva, ela canta As Rosas Não Falam, Mensagem, Da Cor do Pecado, Vingança, entre outras. Eu falo as coisas mais sublimes e mais lindas no palco. Sonho com a emoção de cantar, com as pessoas ouvindo emocionadas. Se eu conseguir fazer arrepiar e chorar, melhor ainda, revela.
Um estado de excitação interrompeu o sono nesses últimos dias. Celia acorda no meio da noite. Quase nenhum ruído externo, mas internamente os acordes latejam em sua mente, inebriando a realidade transformadora. Sempre sonhei em ser cantora. Esperei tanto tempo. Agora, quero provocar fortes emoções, diz, sorridente como uma garota.
MPB com Celia Castro hoje, às 21 horas, no Bar Valentino (Av. Bandeirantes, 61, em Londrina), com Nelson Silva (violão). Couvert artístico: R$ 3,00.


