Por ser um detalhista, Pedro Paulo Rangel chegou a discutir com uma assistente de figurino de ''Desejo Proibido''. Ela sempre queria que o último botão do colete de Galileu, cientista atrapalhado que o ator interpreta na novela, estivesse abotoado. ''Mas ele é um distraído que só pensa em suas experiências. Não está preocupado com a roupa certinha'', rebate o intérprete. É se apegando a essas minúcias que Pedro acredita que um personagem pode fazer a diferença em um folhetim. Mesmo quando o papel é pequeno. E o método parece que deu certo. O ator conta que é abordado a todo momento nas ruas e o público adora a relação engraçada que ele mantém com a esposa ciumenta da história, a Dona Belinda, de Julia Lemmertz. ''Estranho a baixa audiência da novela porque minha audiência onde moro, em Copacabana, é sensacional. Desde as senhoras até o frentista do posto de gasolina, todos me abordam para falar do Galileu'', diz Pedro Paulo, aos risos.
Você fez humorísticos como ''TV Pirata'' e ''Os Aspones''. Nas novelas, também interpreta figuras engraçadas e o Galileu, de ''Desejo Proibido'', tem esse perfil. A comédia o persegue?
Acho que sim. Na grande maioria das vezes, as pessoas me chamam para fazer coisas ligadas à comédia. Acho ótimo, porque fico mais ou menos caracterizado para o público que vê tevê como um ator de comédia. E quando as pessoas falam comigo nas ruas, automaticamente já riem. Me olham como se esperassem algum tipo de divertimento e prazer. Gosto dessa reação positiva. Não passo nada pesado para o público.
E como tem sido a resposta das pessoas em relação ao seu personagem na novela das seis?
Muito positiva. Eu até estranho essa história de ''Desejo Proibido'' ter pouca audiência porque a minha audiência onde moro, em Copacabana, é sensacional (risos). Todo mundo me aborda e são diversos tipos de pessoas, da senhorinha do apartamento da frente ao frentista do posto de gasolina. É uma novela muito bem urdida, com uma trama interessante e com um bom texto. E texto e trama é tudo em um livro, no teatro ou na televisão, porque é a matéria-prima com que a gente trabalha. Mesmo Laurence Olivier, que para mim foi o maior ator inglês, não teria onde se basear com um texto vagabundo em mãos.
Apesar de sempre fazer bons personagens, você só protagonizou uma novela até hoje, ''O Noviço'', em 1975. Você se incomoda com isso?
Não tenho preconceito em relação a papéis e acho que sou um bom coringa na tevê porque faço de tudo. Saí de ''Belíssima'', fui para ''Amazônia'', raspei a cabeça e fiz ''Minha Nada Mole Vida'' em seguida. Logo depois já estava escalado para ''Desejo Proibido''. Isso é ótimo porque um ator tem de jogar com as oportunidades. Algumas são melhores. Outras, nem tanto. Às vezes você encontra caminhos nas florestas mais espessas porque há várias trilhas que a gente pode seguir. Teve uma época em que fiquei preocupado porque estava me repetindo. Queria algo diferente e fui para o teatro fazer o ''Sermão de Quarta-Feira de Cinzas'', do Padre Antônio Vieira.
Você começou no teatro em 1968 e afirma que estréias ainda o deixam tenso. Como é a sua relação com o dia-a-dia do trabalho na tevê?
Tenso é uma palavra bem apropriada para a minha relação com a tevê. Me sinto assim até hoje por causa da falta de tempo para ensaio. Nos palcos, não gosto mesmo é de ir a estréias dos amigos, porque sei que é uma hora complicada. Já para mim é boa a emoção do primeiro dia. Mas na tevê às vezes a gente tem uma cena ótima, que tinha de ser ensaiada dois ou três dias para ganhar uma veracidade maior e é impossível. Fico me segurando no que posso para passar uma tranquilidade que, na verdade, não existe.
Este ano você completa 40 anos de carreira. Há muita coisa que queria ter feito e ainda não conseguiu?
Eu não faço planos porque na esquina a vida nos surpreende com outro projeto. Já jurei que não faria dois trabalhos ao mesmo tempo mas acabo fazendo três. Acho que já fiz bastante coisa em minha carreira e tive ótimas oportunidades. Seria legal fazer um vilão na tevê, algo que nunca fiz. Apesar de adorar cinema, ele não me dá a menor bola e gostaria que me chamassem mais. No entanto, o que eu queria mesmo é tirar férias longas. E poder descansar.

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