Em sua graphic novel ''300'', que estréia nos cinemas do Brasil em 30 de março, Frank Miller gasta um parágrafo inteiro só descrevendo a voz de Xerxes, o imperador da Pérsia, que cria um grande exército para dominar o mundo. Ela é definida como tonitruante como o trovão, macia como mel escorrendo no couro curtido e assim por diante. Rodrigo Santoro teve de fazer todo um trabalho com a voz para interpretar o papel do jeito que o diretor Zack Snyder o visualizava, mas ele sabe que, mais uma vez, se arrisca a virar motivo de chacota. É difícil ser Rodrigo Santoro, bonitão, namorado da top Ellen Jabour e com uma carreira internacional que está fazendo com que, há cinco meses, ele resida no Havaí, por conta das gravações de Lost. ''Nas 'Panteras' diziam que eu entrava mudo e saía calado: agora, como Xerxes, vão dizer que fui dublado, e com uma voz grotesca.'' A verdade é que Rodrigo não foi dublado em ''300''. Ocorre que, pela primeira vez na sua carreira, ele não faz um personagem humano e sim, uma criatura.
Xerxes (que no filme se pronuncia Sercsis) tem 3 metros de altura, assume-se como um deus, com poder de vida e morte sobre a humanidade. Uma figura dessas não poderia ter, digamos, uma voz normal. ''Zack me impôs todo um trabalho vocal. Queria que eu falasse com voz grave, às vezes rouca, e trabalhou tudo isso no computador para criar a voz de Xerxes.'' O resultado é impressionante - para o próprio Rodrigo. ''Em todos os filmes que fiz, eu sempre tinha uma idéia do meu trabalho e do que poderia encontrar na tela. Vi '300' na semana passada, pela primeira vez, e levei um choque.'' Todo mundo leva - a começar pelo visual exótico do personagem. Gay demais? ''Não, é apenas ambíguo'', diz o ator.
Nos últimos dias, Rodrigo tem passado por uma bateria de entrevistas que começou em Los Angeles, para as imprensas doméstica (dos EUA) e internacional, e prossegue agora em Berlim. O que ele mais ouve dos jornalistas é um misto de assombro e incredulidade. Ninguém acredita que o Xerxes da tela seja ele. ''Fico contente porque foi um trabalho que me exigiu muita preparação. Num filme como 'Bicho de Sete Cabeças', também tive uma preparação intensa, mas lá era diferente. Era eu, o Rodrigo gente, interpretando um cara humano como eu. Aqui faço uma entidade.''
Sua experiência hollywoodiana está sendo enriquecedora, mas Rodrigo não faz planos, não fica pensando em como investir na carreira. ''Vivo o momento.'' Foi assim que, na sequência de ''300'', surgiu o convite para integrar o elenco da serie cult ''Lost''. Rodrigo já gravou parte de suas cenas. Foi outra epopéia. ''Não sei nada sobre meu personagem. Fiquei meio desesperado e pedi informações ao roteirista e ele me disse que meu personagem, no final das contas, talvez seja um brasileiro.'' Talvez - essa pouca informação distribuída aos atores faz parte da mística da série (e da produção). ''Bem-vindo ao clube dos que não sabem nada'', foi o que lhe disseram os colegas de elenco, ao desembarcar na praia havaiana de Oahu.
Nas próximas semanas, até março, Rodrigo ainda participa das turnês de lançamento de ''300'' na Europa e nos EUA. Antes disso, na próxima semana, vem ao Brasil. Para o carnaval? ''Cara, não sei. Estou tão cansado que não sei se vou ter energia.'' Rodrigo quer rever sua casa, a namorada. ''Vim só uma vez ao Brasil nos últimos meses. A Ellen foi uma vez ao Havaí, mas ela também tem seus compromissos, sua agenda.''
Ele precisa terminar a pós-produção de ''Os Desafinados''. Lamenta que o diretor Walter Lima Jr., gente tão fina, esteja tendo problemas de dinheiro para finalizar seu filme sobre a bossa nova. Rodrigo também está cheio de expectativa em relação ao filme que fez com André Barcinski, ''Não por Acaso'', prestes a estrear. E tem recebido várias ofertas. Afonso Arau quer que ele seja Carlos Gardel, mas Rodrigo está em dúvida. ''O personagem é muito grande e só fala em gíria. Não faria sentido falar em outra língua que não o espanhol e para isso preciso de preparação.'' E Luiz Fernando Carvalho? ''Não temos nenhum projeto imediato, mas se o Luiz me chamar eu não recuso. Nunca recuso nada dele. Luiz me faz crescer como artista e como pessoa e o admiro muito por isso.''

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