CELEBRIDADE - Estréia em horário nobre
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quinta-feira, 29 de novembro de 2007
Gabriela Germano<br> TV Press 
Marília Pêra é abordada nas ruas por pessoas que acham sua personagem Gioconda, em ''Duas Caras'', engraçadíssima. Por mais que na novela de Aguinaldo Silva ela esteja envolvida em uma discussão séria: o preconceito racial. De acordo com a atriz, muita gente se identifica com a madame que ela encarna no folhetim das oito. ''As mulheres se aproximam e dizem que são iguais a Gioconda. A personagem sabe que é racista, mas se recrimina. Ela só não imaginava que a filha ia namorar um negro e deixá-la em pânico'', resume Marília, com um sorriso discreto.
Este ano a atriz está completando 60 anos de carreira. Pisou pela primeira vez nos palcos ao lado de seus pais, que eram atores de teatro, quando tinha quatro anos. Apesar de já ter vivido figuras inesquecíveis na TV como a Serafina Rosa Petrone, em ''Uma Rosa Com Amor'', de 1972, e Rafaela, de ''Brega e Chique'', em 1987, ''Duas Caras'' é a primeira novela das oito que Marília faz. E ela está feliz com a estréia no horário nobre. ''Acho importante a tevê tocar em assuntos sérios como o preconceito. A novela do Aguinaldo faz isso com muita graça. Vejo que ele escreve o meu texto com muito carinho'', acaricia.
Com uma carreira estável e aclamada no teatro, Marília, hoje com 64 anos, é uma das poucas atrizes brasileiras que poderia viver única e exclusivamente dos palcos. Mesmo assim, ao contrário de muitos atores, diz gostar de fazer televisão. ''Sobretudo quando o texto é bom. Aí não ligo se tiver de decorar 20 cenas em um dia. É um bom personagem que faz um bom ator na televisão'', acredita.
Em ''Duas Caras'', sua personagem Gioconda está diretamente envolvida com a discussão do preconceito racial. Como é para você defender uma figura com esse perfil?
É obrigação da tevê aberta tocar em alguns pontos e ter uma função educativa. E aqui não devemos confundir educativo com chato ou didático. ''Duas Caras'' levanta algumas discussões sensibilíssimas com muita graça. A minha personagem e também a do Stênio Garcia dizem verdadeiras barbaridades. Em determinado capítulo, a Gioconda falou que se recusava a pensar na possibilidade de sua filha ser namorada do Evilásio e que não queria discutir o assunto porque se dissesse o que pensa, mereceria ser apedrejada na rua e xingada de racista. Ela se recrimina porque sabe que é racista mas gostaria de não ser. Muita gente se identifica com ela nesse sentido.
Você já teve respostas do público em relação à postura de sua personagem?
Algumas pessoas já vieram até mim para dizer que morrem de rir com a Gioconda, porque enxergam nela seus próprios defeitos, suas feridas abertas. Era uma personagem toda correta. Quer dizer, a única incorreção dela era tomar comprimidos. Mas a vida lhe pregou uma peça que ela nunca esperava: sua filha se apaixonou por um rapaz negro. Eu represento, através da Gioconda, milhares de mulheres que são assim. E em relação às pessoas que são as mais atingidas pelo racismo no Brasil, também não tive uma reação negativa. As pessoas sabem que sou uma atriz que estou ali a serviço de um personagem.
Este ano você está completando 60 anos de carreira. O fato de ''Duas Caras'' ser a sua primeira novela das oito não é curioso?
Sim. Fiz muitas novelas das 22 horas, quando esse horário existia e também atuei em várias novelas das sete. Mesmo a maneira como fiquei sabendo que faria ''Duas Caras'' foi curiosa. Vi várias notas em jornais dizendo que o Aguinaldo Silva tinha me visto quatro vezes no teatro mas não tinha tido coragem de vir me chamar. Depois, quando finalmente conversamos, cheguei a relutar porque achei que havia muitas atrizes com a mesma idade que a minha na novela e poderia ser complicado. Mas ele está dosando a história de cada uma muito bem e estou achando ótimo fazer esse trabalho.


