Dan Stulbach sempre foi inquieto. Desde criança, quando era melhor aluno no colégio, o ator paulistano gostava de dar idéias em sala de aula. Apesar da timidez, percebeu que sua carreira seria viver vidas paralelas e aprender a interpretar não só os personagens, mas o que acontecia ao seu redor. Foi dessa forma que sugeriu à autora Maria Adelaide Amaral que seu livro ''Aos Meus Amigos'' renderia uma minissérie. De carona, o ator de 38 anos arrecadou Léo, protagonista da obra adaptada, batizada de ''Queridos Amigos''. Dan voltou no tempo ao se identificar com a história, que retrata com uma lente de aumento a amizade de um grupo de jovens idealistas do final dos anos 80.


Você deu a idéia para a Maria Adelaide Amaral transformar em minissérie o livro ''Aos Meus Amigos'', escrito por ela. Como aconteceu?
Ela me chamou para a casa dela para conversarmos sobre ''Nassau'', a minissérie que estava programada para ela fazer, mas que não foi aprovada pela Globo. Eu ia protagonizar esse trabalho. Quando ela disse que essa produção tinha sido cancelada, conversamos muito. Ela tinha um convite para escrever outra história, mas não sabia o que fazer. Falei que tinha lido um livro muito bonito dela, que abordava a década de 80, com um assunto pouco tratado na televisão: a amizade. Dois dias depois, ela me ligou e disse que faria a minissérie.

O Léo é um personagem que precisa viver tudo intensamente. Você passou a enxergar a vida de uma forma mais urgente com esse papel?
Aconteceram duas coisas com a minissérie. Comecei a pensar mais nos meus amigos de infância e a questionar o equilíbrio de tempo que dispomos aos amigos e ao trabalho. Erramos quando damos mais importância ao trabalho e perdemos pessoas que gostamos. Sempre tive uma urgência perante a vida. O que aconteceu a mais nessa minissérie, é que fiquei mexido pela situação do Léo, o que realmente me deu essa sensação de urgência, de falar mais o que eu sinto.


Você e o personagem são judeus. Houve alguma identificação religiosa nessa composição?
Sou menos judeu que o Léo. Ele frequenta a sinagoga, teve uma educação religiosa. Não estudei em colégio judaico. O que temos em comum é a sensação de ''não pertencer'' a esse país. A mãe dele não fala português. Isso é parecido com a minha família, que fala polonês. Eles são meio estrangeiros. O Léo ficou com sonhos por realizar, abriu mão do que era para se encaixar na sociedade, para sobreviver. Tinha um idealismo político muito evidente na trama. Mas a ditadura os oprime. Uns lutam, outros cedem. O tema é um alerta: seja feliz e siga seus sonhos porque o tempo é curto. Faça o que você tem de fazer.



O Marcos foi o personagem que revelou você para o grande público. O que mudou na sua carreira após esse trabalho?
Ele foi o mais marcante. Foi o primeiro personagem grande na tevê. Mudou tudo. Por ser o primeiro, as pessoas me relacionavam imediatamente àquele cara. Não tinham outra referência minha. Eu não imaginava que seria tão duro. Não sentavam do meu lado no avião, mudavam de calçada quando me viam, passaram a não me atender em restaurante, em loja, me tratavam mal, levei ''guarda-chuvada'', ''jornalada'', beliscão. As pessoas tinham medo. Uma vez, cheguei para tomar café da manhã num hotel e todas as pessoas se levantaram e foram embora (risos). Era uma comissão de mulheres. Com esse personagem, ganhei 14 prêmios, foi um reconhecimento maravilhoso.

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