Depois de 50 anos de carreira, Stênio Garcia já se sente no direito de comandar sua carreira na televisão. Mas, como o próprio ator gosta de dizer, tem certas horas em que é impossível dizer não. Foi esse o caso de ''Duas Caras''. Quando foi informado pela emissora de que estaria no elenco da novela, Stênio não imaginou que poderia ser seduzido pela história de Aguinaldo Silva. ''O meu 'xodó' é o 'Carga Pesada', mas devo confessar que o Barreto está me surpreendendo. Estou adorando levantar essa questão do preconceito no horário nobre'', afirma.

Mesmo sem confirmação da próxima temporada do seriado, Stênio já se prepara para emendar as gravações da trama de Aguinaldo com as aventuras dos caminhoneiros. Sua maior esperança está focada na parte financeira. ''A Volkswagen já deixou claro que quer manter o patrocínio para 2008. Só isso já é mais de meio caminho andado para a confirmação'', aposta.

Desde 'O Clone', em 2001, você estava afastado das novelas em função do 'Carga Pesada'. Esse retorno foi a contragosto?
Não imaginava que poderia ser tão bom. Uma das coisas que me prendia muito ao 'Carga Pesada' era o fato de lidar com as classes mais populares em cena. E, de repente, vem uma novela que me coloca na pele de uma advogado de caráter duvidoso, totalmente preconceituoso, com uma filha que namora um negro favelado. É um papel que motiva uma reflexão não só no telespectador, mas na própria equipe. Estou muito surpreso com as manifestações populares em relação ao núcleo do Barreto na novela.

Como são essas manifestações?
As pessoas questionam muito o preconceito. E, infelizmente, ele persiste na sociedade. Só que enrustido. As pessoas costumam adotar uma posição de ficar em cima do muro, sem se manifestar contra ou a favor. É mais cômodo. Mas o Brasil é um país de misturas, o que deveria fazer esse tipo de idéia ser abolida de vez. Até já brinquei com o Lázaro Ramos sobre isso. Disse que quando o Barreto estiver xingando ele de negro ou tição, ele deve chamá-lo de caboclo. Porque é isso que eu sou, e não dá para disfarçar em cena. Sou uma mistura de índio, português e italiano, e com certeza tem negro na minha árvore genealógica. Me incomoda mais o preconceito racial do que o social nesse caso.

Por quê?
A vida urbana está se tornando cada vez mais perigosa. Tenho duas filhas que não são crianças e mesmo assim fico monitorando tudo através do telefone. A gente vê nos jornais esses tiroteios, o poder do tráfico de drogas e todas as pessoas inocentes que morrem em função disso. A idéia de ter uma filha circulando assim em uma favela pode ser assustadora para várias pessoas, não pelo fato de estarem lidando com pobres, mas sim por colocar em risco suas vidas. Mas acho que a questão principal do Barreto é a filha estar envolvida com um negro. Cor a gente não disfarça.

As gravações da novela terminam em maio. Como fica o 'Carga Pesada' em 2008? Já confirmaram a próxima temporada?
Não, ainda não deram uma posição final. Mas o Mário Lúcio Vaz, diretor da Central Globo de Controle de Qualidade, já disse que a Volkswagen quer manter o patrocínio para o ano que vem. Acho que a empresa também se preocupa com essa questão financeira, então é quase certo que estaremos na grade. É provável que as gravações já comecem em junho. Vamos ter pouco tempo de descanso, mas demorou tanto para conseguirmos ressuscitar o 'Carga Pesada' que agora qualquer esforço vale a pena.

O 'Carga Pesada' prende você e o Antônio Fagundes e isso vem desagradando alguns autores. Por sua vontade, você deixaria de fazer novelas?
Sou funcionário da Globo há 35 anos e, até por conta do meu currículo extenso, sou uma espécie de curinga deles. Sempre me esforcei muito e alcancei o status que tenho hoje com muito trabalho e suor. Estudei, não fiz feio e, é claro, hoje posso fazer valer, de vez em quando, a minha vontade. Não vou dificultar nada, se a empresa precisar de mim, é lógico que tenho de cumprir meu contrato e fazer novela. Mas meu xodó é o 'Carga Pesada'.

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