Os intensos olhos azuis de Ana Paula Arósio piscam incessantemente enquanto a atriz conversa. Na pele alva de Laura, em ''Ciranda de Pedra'', da Globo, Ana Paula volta à sua posição mais confortável na dramaturgia: histórias de época em composição com prosódia e gestuais antigos. Numa fase profissional mais madura e prestes a completar 33 anos de idade, a atriz, que começou a carreira estampando capas de revistas de moda, se orgulha de ter feito uma trajetória pontuada por diversas protagonistas na tevê. ''Sou apaixonada por História e isso se reflete nas minhas personagens. Gosto do rebuscamento e do cuidado que precisamos ter com esse tipo de composição'', valoriza.
Na trama de Alcides Nogueira, Laura casou-se muito cedo com Natércio, papel de Daniel Dantas. Dessa união, nasceram Bruna e Otávia, de Anna Sophia Folch e Ariella Massoti, respectivamente. Mas Laura apaixonou-se pelo neurologista Daniel quando teve de começar um tratamento psiquiátrico. Deste caso extraconjugal, nasceu Virgínia, de Tammy Di Calafiori. A menina é criada como filha legítima de Natércio e o personagem faz um pacto com a mulher e Daniel para que a traição não resulte num escândalo. No entanto, com o tempo e a piora do estado psicológico de Laura, a personagem decide ir morar com o amante. ''Já fiz tanto drama na tevê que estou mais à vontade para relaxar em cena e curtir as loucuras da Laura'', diverte-se Ana Paula.
De todas as personagens de época que já interpretou, Laura é a única que realmente se comporta como uma mulher antiga. ''Realmente ela é a única verdadeiramente de época entre as outras. Não é uma mulher à frente de seu tempo nem quer ser livre ou virar uma libertadora feminista. Seu único desejo é ficar com o homem que ama e suas três filhas. Isso parece tão simples, mas é difícil para ela, que é presa aos grilhões da época. Minhas outras personagens eram mais fortes, questionavam os costumes e a moral da época em que viviam. A Laura não questiona nada, ela não é reativa.''
Às vezes é difícil olhar para a atriz, que está prestes a completar 33 anos de idade, e acreditar que, na novela, ela é mesmo a mãe daquelas três moças. Ana Paula confessa que não consegue se imaginar com filhos. ''Nem penso nisso. É bom ser mãe assim, de filhas crescidas, vacinadas, que já entendem o que eu falo. Mas naquela época era normal uma mulher de trinta e poucos anos já ter filhas grandes. Ela deve ter casado com uns 15 anos. Seria plausível que tivesse uma filha de 20. O estranho, na verdade, é que essas três meninas ainda estão encalhadas (risos). O que elas estão fazendo em casa? Tem de botar esse povo para casar!'', brinca.
Ana Paula Arósio assume que nunca viveu em lua-de-mel com o teatro nem com o cinema. Apesar de ter feito peças como ''Fedra'', dirigida por Antônio Abujamra, e ''Casa de Bonecas'', com Aderbal Freire-Filho, a atriz assegura que há tempos tenta estrear trabalhos no teatro sem sucesso. ''Sempre que monto uma equipe e começo a leitura de uma peça, alguém aparece e faz primeiro a mesma montagem. Já estou até com medo de começar alguma coisa. Precisam largar do meu pé'', reclama.
No cinema, além de atuar como a divertida Prima Esmeraldina no longa ''O Coronel e o Lobisomem'', produzido por Guel Arraes e dirigido por Maurício Farias, a atriz fez apenas duas outras participações na telona. A primeira foi no início de sua carreira, quando viveu a Berenice no filme ítalo-brasileiro ''Per Sempre'', de Whalter Hugo Khouri, em 1991. Seu outro longa, ''Celeste & Estrela'', em que interpretava a recepcionista Salete, foi um fracasso de bilheteria. Mesmo assim, ganhou seis prêmios, dentre eles, Ana Paula conquistou o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante no Festival de Cinema de Varginha. ''Não dou muita sorte com cinema. Quando faço projetos grandes, o diretor foge com o dinheiro ou os projetos desandam. Mas um dia eu consigo'', torce.
De todas as mocinhas fortes e destemidas de Ana Paula Arósio na tevê, foi sua estréia numa novela na Globo que mais marcou a atriz. Em ''Terra Nostra'', de Benedito Ruy Barbosa, a atriz interpretou sua primeira protagonista em novelas: Giuliana. A filha de imigrantes italianos, que trabalhavam nas fazendas de café do interior de São Paulo, comoveu a atriz pela semelhança com a história de seus antepassados. ''Fora isso, tive uma química ótima em cena com o Thiago Lacerda, que viveu o Matteo. Até hoje as pessoas lembram do casal'', anima-se.
No livro 'Ciranda de Pedra', da Lygia Fagundes Telles, que inspirou a novela, a Laura morre na história. Ana Paula confirma que a morte da personagem é cogitada, mas deixa uma pitada de surpresa para o final: ''O Alcides (Nogueira) me falou que está com dó de me matar. No começo, ficaria 50 capítulos. Agora já são 80. Eu não sei. Se ela morrer, também é bem capaz de voltar. Virou moda fantasmas em novelas. Mas, no livro da Lygia, Laura é morta por André, que pratica a eutanásia pelo estado avançado da doença da Laura. Em seguida, ele se mata. Mas não sei como o Alcides vai resolver''.

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