Paulo Betti é um idealista. Confortavelmente acomodado num sofá de sua espaçosa casa em estilo neoclássico no Itanhangá, na Zona Oeste do Rio, o ator fala praticamente com a mesma emoção sobre a infância pobre com 14 irmãos e de seu atual personagem em ''Sete Pecados'', na Globo. Sempre com um esboço de sorriso no rosto, Paulo não tem receios de ser mal interpretado.

Nem mesmo quando assume que sempre vai se posicionar politicamente, independentemente se isso possa vir a prejudicar sua carreira como ator. Por isso mesmo, o ator nascido na pequena Rafard, no interior de São Paulo, há 55 anos, se identifica tanto com o arqueólogo Flávio. Pai da diabólica Beatriz, de Priscila Fantin, o milionário sofreu um grave acidente e ficou meses desaparecido até surgir na história para dar uma ''lição'' na filha, que ficou pobre ao ter de devolver sua fortuna para o pai.

Em sua primeira novela de Walcyr Carrasco, Paulo se empolga ao descrever as qualidades do personagem que tem como meta aproveitar a vida. ''Dois terços da minha vida já se foram. Não tenho mais afobamentos. Assim como o Flávio, quero viver com o pé no chão e realizar meus sonhos possíveis'', filosofa.



Há tempos você não atua com personagens de destaque em novelas. Apenas tem feito pequenas participações. O que fez você retornar com o Flávio?
Betti - Não queria ter ficado distante de grandes personagens, mas estava dedicado a projetos como meu filme, o ''Cafundó''. Cheguei a fazer ''Malhação'' e participações em ''A Grande Família'' e especiais. Não planejei isso. Mas decidi realmente voltar quando recebi um convite do diretor Jorge Fernando. Encontrei com ele num aeroporto e ele parecia ter me ''redescoberto''. Não nos falávamos desde que fiz ''A Próxima Vítima''. Ele comentou com o Walcyr e decidiram me escalar. Mas o que me fez voltar mesmo foi o fato de começar a gravar a novela no Piauí. Tinha muita curiosidade de conhecer a região de Sete Cidades, onde gravamos.

O Flávio é um arqueólogo, mas sua profissão não é tão relevante na história. Por onde você começou essa composição?
Como ele ficou muito tempo perdido, pensei em deixá-lo barbudo. Comecei a gravar com uma barba desleixada e o cabelo grande. Depois, acharam melhor tirar a barba. Mas mantive o cabelo de alguém que não se arruma muito. Uso também uma joelheira e uma cotoveleira por baixo do figurino. Como ele teve uma lesão na perna e no braço, preciso me lembrar onde é para ele mancar do lado certo. Senão, na hora de fazer a cena, saio andando normalmente. O fato dele ser arqueólogo realmente não pediu composição. Minha inspiração básica foi o contato com a natureza do Piauí. O personagem veio nessa convivência.

Grande parte dos seus personagens na tevê foram cômicos, como o Timóteo, de ''Tieta'', ou policiais e políticos. Justamente em sua primeira novela com o Walcyr Carrasco, que normalmente escreve comédias, você tem feito um tipo dramático, que corre risco de morte. Isso foi um estímulo?
Sempre tive uma queda pela comédia em novelas. O que me atrai no Flávio, que é diferente de tudo que já fiz, é que ele tem uma alma muito iluminada. É uma pessoa absolutamente do bem. A relação dele com a Clarice, da Giovanna Antonelli, é amorosa, compreensiva. Acredito que é o personagem que fiz que as pessoas mais gostariam de conviver. As mulheres apreciam um homem como o Flávio. Ele é bem-nascido, rico, tem fortuna, mas é generoso, simpático, carinhoso.

Que personagens mais marcaram sua carreira na tevê?
Indefectivelmente, foi o Timóteo, de ''Tieta''. É meu personagem mais popular até hoje, com muitos bordões. Quem não se lembra dele falando ''Sum Paulo'', ''Nus trinques'', ''Di jeito ninhum''? Até hoje encontro as pessoas nas ruas e elas lembram dele. O detetive Olavo de ''A Próxima Vítima'' me traz boas recordações, assim como o André Amadeu, que fiz em ''Os Imigrantes'', na Band. Outro tipo inesquecível foi o Carlão Batista de ''Pedra Sobre Pedra'' e o Odorico, de ''Engraçadinha... Seus Amores e Seus Pecados''.

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