A literatura brasileira possui um arsenal de personagens memoráveis que extrapolaram as páginas dos livros e ganharam o inconsciente coletivo do brasileiro. Nomes como Emília (atrevida), Macabéa (ignorante), Macunaíma (preguiçoso), Capitu (dissimulada) e Dona Flor (boazuda) atingiram o status de adjetivo. Elencar os personagens representativos e elevá-los a categoria de clássicos é uma tarefa arriscada, em função da dimensão da nossa literatura.
Mas os estudiosos e professores Lourenço Dantas Mota e Benjamin Abdala Junior reuniram 12 ensaístas para fazer a biografia crítica de 12 personagens antológicos da literatura brasileira no livro ‘‘Personae’’ (Editora Senac). A quadrilha de imortais é encabeçada por Iracema, Brás Cubas, Capitu e Policarpo Quaresma. Também foram selecionados Emília, Macunaíma, Paulo Honório, Augusto Matraga, Capitão Rodrigo, Riobaldo, Dona Flor e Macabéa. O critério para a seleção de ‘‘Personae’’ foi o afetivo.
Cada qual resguarda seu personagem como um advogado de defesa munido de argumentos e se valendo até da intertextualidade, citando outros estudiosos. Cada ensaio desperta a vontade de reler os livros onde esses personagens foram retirados. No mergulho ficcional, encontram-se figuras transcendentes. A maioria ganhou as telas de cinema ou se transformou em personagens de novelas e minisséries televisivas. Alguns filmes se tornaram antológicos, como ‘‘Macunaíma’’, de Joaquim Pedro de Andrade, ‘‘A Hora da Estrela’’, de Suzana Amaral, ‘‘São Bernardo’’, de Leon Hirzsman e ‘‘Dona Flor e Seus Dois Maridos’’, de Bruno Barreto.
O primeiro perfil crítico traz Iracema, de José de Alencar. Silviano Santiago apresenta a virgem dos lábios de mel como signo sacrificial da América colonizada. Dois personagens machadianos trazem a melancolia e o amargor de Machado de Assis. Domício Proença Filho apresenta ao leitor os enigmáticos mistérios do coração de Capitu, criada por Machado de Assis em 1899, no livro ‘‘Dom Casmurro’’. Um dos ensaios mais interessantes de ‘‘Personae’’ leva a assinatura de Marli Fantini Scarpelli sobre o defundo autor Brás Cubas (1881), de ‘‘Memórias Póstumas de Brás Cubas’’.
De ‘‘Triste Fim de Policarpo Quaresma’’, de Lima Barreto, de 1881, o escritor e médico Moacyr Scliar ressalta do personagem a aspiração de pureza linguística e cultural emoldurada numa imagem satírica. Sobre o espírito inquebrantável do personagem, Scliar defende: ‘‘caráter não falta a Policarpo Quaresma; mas também não lhe falta loucura. Por isso, ele é mais um anti-herói do que um herói, como muitos milhões de brasileiros que quebram a cara lutando por um país melhor’’.
Em 1920, Monteiro Lobato inaugura na literatura infantil uma nova fase com a criação de Emília, a boneca atrevida, no livro ‘‘A Menina do Narizinho Arrebitado’’. O ensaio de Marisa Lajolo traça um panorama de Emília desde o nascimento da boneca até se tornar numa das criaturas mais sedutoras da literatura brasileira. Como o livro agrega os personagens em ordem cronológica, logo após a boneca de macela entra o herói sem caráter Macunaíma, de 1928. Sobre a rapsódia modernista, Eneida Maria de Souza destaca: ‘‘a procura de um traço nacionalista de Macunaíma se faz por meio de sua ausência, de rupturas com os tradicionais meios de consolidação da nacionalidade’’.
Um dos organizadores de ‘‘Personae’’, Benjamin Abdala Junior, escreveu sobre Paulo Honório, personagem criado sob o arrimo de Graciliano Ramos, no romance ‘‘São Bernardo’’. Segundo Abdala, há uma forte busca daquilo que falta a Paulo Honório no romance, o equilíbrio. ‘‘Situado no cruzamento entre o rural e o urbano, Paulo Honório é um narrador híbrido, destaca o ensaísta.
De ‘‘Grande Sertão: Veredas’’, de Guimarães Rosa, o herói sertanejo em constante travessia, Riobaldo, ao pactuar-se com o diabo para vencer o mal da jagunçagem, se faz irmão de Augusto Matraga. Esse outro personagem retirado do conto rosiano quer entrar no céu pela força do porrete. Encarnando o imaginário sincretista, tão recorrente na mitologia da baianidade, surge Florípedes, ou Dona Flor, do romance ‘‘Dona Flor e Seus Dois Maridos’’, de Jorge Amado. Excessiva e sensual, encarna o multifacetado Brasil, ao lado de seus dois maridos. Se Flor cheira a excesso, Macabéa é a representação da falta. Pelas mãos do narrador Rodrigo, a alagoana vive sob constante rejeição. ‘‘Macabéa permanece sempre num lugar neutro, utópico, insustentável, num vácuo, que é ao mesmo tempo o lugar da exclusão’’.
Ainda das fronteiras indefinidas do Brasil, Luis Antônio de Assis Brasil defende Rodrigo Cambará, personagem de Érico Veríssimo retirado do grande painel ‘‘O Tempo e o Vento’’. Na galeria dos invencíveis, Rodrigo Cambará figura entre os personagens em que a literatura do Sul tornou-se devedora e credora.
Serviço: ‘‘Personae - Grandes Personagens da Literatura Brasileira’’, organizadores: Lourenço Dantas Mota e Benjamin Abdala Junior, Editora Senac/São Paulo, Preço R$ 40,00, 324 páginas.

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