São Paulo - 27 (AE) - No vernáculo americano, a expressão ''catch 22'' refere-se a uma situação de impasse, em que o sujeito se encontra sem saída devido à burocracia que supostamente resolveria o problema - algo como a nossa ''sinuca de bico'', mas com uma pitada surrealista.
A solução, de acordo com Joseph Heller, é o sarcasmo, infalível antídoto cômico que o autor destilou à perfeição em seu romance sobre a segunda guerra, Catch 22 (Ardil 22, em português), que popularizou a expressão ao retratar, no início dos anos 60, o cotidiano absurdo de uma base aérea no Mediterrâneo, em que pilotos com atestados de insanidade não precisavam voar, mas só quem era realmente louco - eis o ''catch'' - conseguia realizar as missões.
O clássico best-seller faz 50 este ano, com direito a reedição, uma biografia do autor e um livro de memórias de sua filha, Erica Heller. O livro ainda é leitura mandatória em salas de aula dos EUA e a influência de Heller é palpável em seriados como The Office e Mad Men. ''O estilo de Ardil 22 tem bastante a ver com o humor judaico que Heller ouviu quando criança. Sua mãe falava iídiche em casa e Joseph ouvia comediantes de rádio que eram mestres nesses tipo de sarcasmo pontiagudo'', conta, ao Grupo Estado, Tracy Daugherty, autor de Just One Catch: a Biography of Joseph Heller, publicado nos EUA em agosto.
Ao contrário do que a prosa fluida e casual de Heller sugere, o livro levou mais de dez anos de trabalho ininterrupto para ser publicado. ''Fazer humor não é tão fácil quanto parece'', comenta Daugherty. ''Ele começou a pensar no livro no fim dos anos 40, depois de servir no exército, durante a Segunda Guerra. Escreveu diversas versões durante os anos 50, enquanto trabalhava em uma agência de publicidade e o publicou somente em 1961.''
O livro deixou a crítica dividida. Foi detonado pela New Yorker e elogiado em publicações menos influentes. A crítica do New York Times foi morna, mas em menos de um ano, Ardil 22 havia se tornado o livro mais lido no underground literário nova-iorquino.
Heller começou a ser convidado para entrevistas e a febre pegou. Até que no fim de 1963, 2 milhões de cópias já haviam sido vendidas e a história de Heller prestes a tornar-se uma espécie de manifesto dos opositores da Guerra do Vietnã. ''O livro é completamente autobiográfico'', conta Daugherty. ''Yossarian, o protagonista da história, é inspirado no próprio Heller. Muitas das missões do livro são baseadas em missões que ele realizou como bombardeiro para os aliados durante a Segunda Guerra'', completa.
Heller tornou-se celebridade. Começou a frequentar o jet set e a sair com estrelas judaicas de Hollywood como os atores Zero Mostel, Carl Reiner e o diretor Mel Brooks, com quem Heller participava de extravagantes e duradouros jantares.
O brilho de seu primeiro livro, junto com a lentidão de seu processo criativo, ajudou a fixar a imagem de que Heller foi um autor de um livro só, brilhante em seu primeiro esforço, mas sem algo para solidificar sua permanência entre os grandes da literatura americana. ''Houve muita pressão'', conta Daugherty. ''O estilo de vida dele era certamente incompatível com o de alguém que deseja produzir rapidamente. Mas acho que há um equívoco em dizer que ele era preguiçoso. Era simplesmente alguém que criava devagar. Demorou dez anos para escrever seu primeiro livro, mais 13 para lançar o segundo'', comenta.
Mesmo com dois livros lançados em seu auge criativo, o impacto de Heller é sentido no humor sarcástico de seriados como The Office e Mad Men, que adaptaram o seu tipo de humor para situações de trabalho. ''Matthew Weiner, o diretor de Mad Men já disse diversas vezes que o seriado é influenciado pelo segundo livro de Heller, Something Happened. Eu acho que The Office também é. O livro se passa em uma agência de publicidade - tem por base a própria vivência de Heller como publicitário durante os anos 50 - e é possível ver como este mundo profissional de inveja e puxadas de tapete, e todo o humor destas situações, saem desse livro e de Ardil 22.
No livro Yossarian Slept Here, de Erica Heller, o retrato é de um pai egocêntrico e ausente. Aos 59, Erica parece ter cicatrizado o ferimento de pérolas como a que Heller soltou quando a filha sofria de câncer, visitando-a no hospital e ordenando que melhorasse para que não tivesse de voltar lá. O mais interessante de sua história, no entanto, é que Erica, também escritora, nunca leu Ardil 22. ''Comecei centenas de vezes. Acho brilhante. Mas nunca quis terminar, porque quando eu terminar, não terei mais nada dele para esperar'', contou, em entrevista ao Grupo Estado, sobre o livro que já vendeu mais de 10 milhões de cópias.

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